7 de março de 2026
PÁGINA 15 POLITICA

Por Marcela Carneiro, professora

Fortaleza (CE) — A presença de estudantes da Licenciatura em Educação do Campo na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (FACED/UFC) não pode ser compreendida como um ato isolado ou meramente administrativo. Trata-se de uma ruptura social e política que revela contradições históricas na estrutura da universidade pública brasileira e reacende o debate sobre quem tem, de fato, acesso ao conhecimento científico e aos espaços de decisão.

Vindos de territórios rurais, assentamentos, comunidades quilombolas e áreas tradicionalmente excluídas das políticas educacionais, esses estudantes ocupam um espaço que, por décadas, foi pensado para atender majoritariamente às elites urbanas. A ação tensiona a lógica centralizadora do ensino superior e denuncia a permanência de desigualdades estruturais entre campo e cidade.

Educação como território de disputa

A Licenciatura em Educação do Campo é fruto de longas lutas dos movimentos sociais camponeses, que reivindicam não apenas acesso à universidade, mas uma formação vinculada à realidade do trabalho, da cultura e da vida no campo. Ao ocuparem a FACED, os estudantes afirmam que a universidade pública não pode continuar reproduzindo exclusões históricas sob o discurso da neutralidade acadêmica.

A ocupação evidencia que a educação é um campo de disputa política, no qual diferentes projetos de sociedade se confrontam. De um lado, a lógica que centraliza o saber na cidade e deslegitima conhecimentos populares; de outro, a defesa de uma universidade plural, territorializada e socialmente comprometida.

Campo não é atraso, é resistência

A presença dos estudantes da Educação do Campo em Fortaleza rompe com estigmas historicamente construídos que associam o meio rural ao atraso. Ao contrário, o movimento revela o campo como sujeito político e produtor de conhecimento, capaz de intervir criticamente nos rumos da educação pública.

Mais do que ocupar um espaço físico, os estudantes reivindicam reconhecimento institucional, condições materiais dignas de permanência e respeito aos projetos pedagógicos construídos a partir das realidades camponesas. A ação coletiva denuncia a distância entre o discurso democrático da universidade e as condições concretas oferecidas a esses sujeitos.

Contradições do Estado e limites das políticas públicas

Embora políticas como a Licenciatura em Educação do Campo representem avanços, a ocupação também expõe os limites do Estado brasileiro, que frequentemente cria programas sem garantir financiamento, infraestrutura e permanência estudantil adequadas. Cortes orçamentários e a precarização da universidade pública aprofundam essas contradições.

Nesse contexto, a ocupação surge como instrumento legítimo de reivindicação, tornando visíveis conflitos que costumam ser silenciados nos espaços institucionais.

Uma ruptura necessária

A ocupação da FACED/UFC não ameaça a universidade pública; ao contrário, reafirma seu caráter popular e democrático. Ao tensionar estruturas excludentes, os estudantes da Educação do Campo lembram que a história da educação no Brasil é marcada por lutas e que nenhum direito foi concedido sem mobilização.

O movimento aponta para a urgência de repensar a universidade como espaço verdadeiramente plural, onde o saber não se concentra, mas se constrói coletivamente. Em tempos de avanço das desigualdades, a ocupação revela que a educação segue sendo uma das principais trincheiras de resistência e transformação social.