17 de março de 2026
p.19

A loucura de São Jorge

Por José Oberdan Leite

Professor

 

Estava eu na sala de coordenação quando de repente a voz de um aluno do outro lado da parede, numa área descoberta, atravessava a janela e chegava aos meus ouvidos. O estranho era o fato de ser uma voz única, sozinha e altamente sorridente que dizia:

– Não, eu não acredito, não! É mesmo? E o que você disse? – E sorria com extrema facilidade.

Curioso, olhei pela janela para ver quem fazia companhia ao autor da fala. Olhei e percebi que ninguém era dono desse papel. Ele ria e gesticulava como se estivesse na companhia de alguém. Dava pequenos saltos na hora das boas risadas. Ia e falava enfaticamente, vinha e gesticulava de forma bem espontânea.

Pensei cá comigo e falei em voz baixa:

– Este rapaz está ficando maluco. Isso é loucura. Será que os pais deles sabem sobre esse aparente distúrbio? Ele conversa e gesticula como se falasse com alguém.

Como este problema era diferente de tudo que vivi até então, fui lá ver o que era realmente.

Vendo-me diante de um problema novo em que eu não enxergava nenhuma solução aparente, vasculhei de cabo a rabo as aprendizagens que obtive em toda a minha experiência de vida e me senti um verdadeiro São Jorge usando as fortalezas que as formações coaching me garantiam como armadura, e usando como um cavalo as lições sobre o comportamento humano que as aulas de psicopedagogia me asseguravam. Eu me sentia um cavaleiro empunhando a grande lança que a experiência de vida em formações pedagógicas me assegurava ser um batalhador. Ergui o peito e saí ao pátio para resolver aquilo que seria mais um problema desconhecido que a vida me preservara. E falei cá, comigo:

– Esse dragão é novo. Não sei se tenho conhecimento suficiente para enfrentá-lo, mas vou.

Ao chegar ao pátio, direcionei-me ao rapaz que continuava na sua espontaneidade de risos e conversas. E eu enxergava naquilo tudo um grande dragão que cuspia labaredas de um problema comportamental desconhecido em direção a todo o meu conhecimento profissional.

Ao virar de frente pra mim e sem se deixar inibir pela minha presença, ele continuou naquela graça toda e foi aí que eu percebi: ele estava usando pequenoa fones de ouvido sem fio e um celular no bolso onde conversava via WhatsApp com seu amigo na maior naturalidade.

Disfarcei minha ignorância preestabelecida em sala e fiz de conta que estava só passeando no pátio.

Ao voltar, fiquei pensando no que seria realmente a loucura. Dependendo do ponto de vista segundo o qual é analisada, ela poderia ser também a própria sanidade. Ora, se não houvesse a tecnologia a mudar conceitos, a atitude daquele aluno seria loucura. Como havia fones de ouvido e um celular, o que seria loucura passou a ser a manifestação da espontaneidade do comportamento dele. Já pensou se eu continuasse na insistência de que o garoto estava louco? Quem seria louco? Eu.

Em um momento do livro “História da Loucura” de Michel Foucault, Tristão viveu disfarçado de louco e assim era visto por todos. E por ninguém saber sua origem de fato, a senhora Isolda disse que “esse louco era filho do mar”.

Eu, como fez Isolda, joguei ao mar dos maus conceitos aquele aluno que aparentava ter um comportamento diferenciado do normal. E, por falta de conhecimento de causa, fui eu que quase me afoguei.

Desta forma, acredito que loucura é você nunca se achar louco.

 

Moral: Sabedoria é você acreditar na sua própria loucura e fazer com que os outros acreditem também.