6 de março de 2026
p. Patuás Pedagógico

Por José Oberdan Leite

Professor

 

Nas aulas finais de uma quinta-feira à tarde, eu vi uma colega professora beijando brevemente um amuleto antes de entrar na sala. Aquilo me chamou atenção e, no intervalo de aulas, perguntei a ela sobre aquele momento observado por mim. Ao que ela me disse:

– Ave Maria! Eu sempre faço isso antes de entrar naquela sala de aula do primeiro ano. Lá só tem maus alunos.

Mais tarde, com rosto de satisfação, ela, a professora, saiu de sala por ter tido, naquela manhã,uma aula muito boa com  alunos mais silenciosos e menos enfrentadores. Ela estava convicta que o patuá que beijou foi o que lhe trouxe sorte.

Talvez o que ela beijou fosse uma figa, coisa que os gregos e os romanos usavam para afastar a esterilidade e ela estava usando para afastar o mau olhado dos alunos que buscavam conhecimento novo.

Talvez fosse um patuá, coisa que os negros usavam por trazer o axé, a força mágica dos Orixás para obter proteção e ela, a professora, crentemente estava usando para abençoar as aulas mal planejadas.

Talvez fosse um pé-de-coelho beijado para trazer a sorte que poderia ser produzida simplesmente por um autocontrole emocional e, consequentemente, um maior engajamento na condução das atividades coletivas em sala.

Talvez fosse um talismã, que ela mesma criou, carregado de poderes mágicos a fim de dominar o barulho exacerbado dos discentes, entretanto, pelo jeito, as forças do universo não estavam em harmonia para com a execução das aulas.

Talvez fosse um pingente em que, antigamente, os místicos encerravam virtudes sobrenaturais, mas que a professora poderia atrair tais poderes simplesmente planejando as aulas de acordo com a realidade da sala e, desta forma, configurando melhores aulas de maneira a ter propostas instigantes que envolvessem todos os seus alunos.

Deixar que seus amuletos, talismãs, pingentes e patuás resolvessem seus problemas em sala, tirou-lhe o potencial de ser inventora da vida profissional que realmente precisava ter. Transportar esse poder em peças místicas, por exemplo, fez a professora até preconceituar o que seja um “mau aluno”. Na verdade, o “mau aluno” é um dos recursos humanos e pedagógicos que todo educador dispõe para manter seu equilíbrio profissional. Por exemplo, há professores que diante de uma sala trabalhosa mantêm o equilíbrio aperfeiçoando-o ainda mais, enquanto outros se perdem no desequilíbrio emocional.

Um ‘mau aluno’ é o divisor de águas entre um bom e um mal profissional. Quando esse desafio surge, a pergunta é: onde está o professor? Perdeu-se nos próprios limites ou se transformou em um profissional mais preparado, crescido e realizado?

O conceito de ‘mau aluno’ é limitado àqueles que não sabem transformar momentos difíceis em oportunidades de crescimento. O verdadeiro educador não se resume a transmitir conhecimento, mas sim, a saber se adaptar e se transformar para superar os desafios.

Quando há um fracasso cotidiano da nossa parte, lembremos de que esse fracasso pode ser o resultado do nosso desalinhamento, do nosso desplanejamento, mas nunca da nossa incapacidade. Somos capazes, sim.

Minha tia já me ensinava nas suas conversas, um ditado que dizia ‘galinha satisfeita não bota mais ovo’. Sejamos felizes com o professor que somos, mas não nos contentemos apenas com o que já conhecemos. Busquemos novos horizontes e novas formas de crescer. Aquele que ensina o que sempre soube, sem renovar conhecimentos, continuará sendo o que sempre foi.

Quando nos esforçamos para ser mais, podemos verdadeiramente fazer a diferença.

 

Moral: A vida nos dá escolha – podemos estar vivos enquanto vivos, ou mortos enquanto vivos.