7 de março de 2026
A carne mais barata do mercado: o grito das ruas contra a necropolítica

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Nas redes sociais, imagens contundentes e frases duras invocam indignação: corpos alinhados no chão de uma via em favelas. Isso é política de segurança? !A carne mais barata do mercado é a carne negra!”. Essa chamada direta, visceral chama atenção para um padrão persistente: a morte da população periférica como ferramenta de controle estatal.

Nestes dias, o Rio de Janeiro assistiu a uma operação policial recorde em letalidade: nos complexos do Alemão e da Penha, pelo menos 64 pessoas foram mortas, 60 civis e 4 policiais, segundo reportagens.

Organizações de direitos humanos denunciam que esse episódio não é uma exceção, mas parte de uma lógica estrutural que combina segurança com extermínio.

Essa “guerra às favelas” é praticada em território marcado pela desigualdade racial: jovens negros morrem com uma frequência muito superior à dos demais. A metáfora da “carne negra” não é poética — é cruelmente literal no panorama da necropolítica brasileira.

História, memória e padrão estrutural das chacinas no Brasil

O que chamamos de “chacina policial” — mortes em massa perpetradas por agentes do Estado — não é fenômeno novo no Brasil. Mas sua recorrência exige reflexão.

Alguns casos emblemáticos

  • Chacina do Jacarezinho (6 de maio de 2021): durante uma operação da Polícia Civil na favela do Jacarezinho (RJ), ao menos 27 a 29 pessoas foram assassinadas, muitas sem que tivessem vínculo comprovado com facções criminosas.
  • Chacina da Vila Cruzeiro (24 de maio de 2022): numa ação conjunta entre BOPE, Polícia Federal e outras, 23 mortos foram registrados.
  • Comparações e dados mostram que estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará lideraram o número de casos entre 2016 e 2018.
  • Em estudos como Da violência aos massacres: reflexões sobre o fenômeno das chacinas no Brasil, registra-se que muitas dessas ações envolvem impunidade, seletividade racial e naturalização da violência estatal.

O conceito de necropolítica

O termo “necropolítica”, cunhado pelo filósofo Achille Mbembe, refere-se à política de decidir quem pode viver e quem pode morrer. No Brasil, esse conceito se manifesta fortemente nas favelas, onde vidas negras — especialmente jovens — são consideradas descartáveis.

A “política de extermínio” está inscrita nas práticas de segurança: uso indiscriminado da força, execução sumária, ocultação de cadáveres, ausência de socorro às vítimas — tudo sancionado ou silenciado pelo aparato estatal e pela estrutura judicial.

Relação entre “política de segurança” e extermínio

Como é possível que uma violação da vida seja tratada como política pública legítima? Vejamos alguns pontos críticos:

  1. Militarização da segurança pública

Quando o governo recorre a blindados, Força Nacional, decreto de estado de urgência ou “uso excepcional” de forças — tudo isso eleva a escalada da letalidade. Organizações apontam que o atual governo estadual do RJ participou de quatro das cinco operações mais letais da história recente do estado.

  1. Racismo estrutural e seletividade racial

As políticas repressivas raramente “erram alvos”. Elas operam dentro de uma lógica racista de controle territorial: jovens negros da periferia são tratados como inimigos em potencial. A “carne negra” torna-se insuportavelmente visível.

  1. Impunidade e silenciamento

Muitas chacinas são envoltas em silêncio institucional: poucas investigações concretas, testemunhas intimidatórias, arquivo de processos ou absolvições. Há, ainda, uma gestão de narrativa que tenta justificar o extermínio como “resposta à criminalidade”.

  1. A falácia do “medo público”

A ideia de que “política se faz com sangue” — Lula ou Bolsonaro — reforça-se quando governos propagandeiam ações violentas como demonstrações de força. Mas recorrer à violência letal como instrumento de segurança é equívoco mortal.

A foto como grito: imagens e suas repercussões simbólicas

As imagens nos jornais mostram corpos estendidos à rua, (pessoas ao redor, choque coletivo) são poderosas. Elas rompem a invisibilidade que muitos tentam manter sobre a repressão nas favelas.

Elas denunciam: são registros visuais de violência, mas também coletivos de memória e resistência.

Uma leitura da realidade bem feita  exige contextualização, checagem de autoria, e busca pelos sobreviventes. Essas imagens não podem ser reduzidas a espetáculo sensacionalista.

Caminhos para (re)existir: propostas de mudança

Para além da denúncia, quais caminhos podem ser vislumbrados?

  1. Controle social e fiscalização

A ADPF 635 — também chamada “ADPF das Favelas, buscava estabelecer parâmetros para reduzir a letalidade policial no RJ. Após decisões do Supremo, perdeu força institucional, mas permanece como ponto de interferência social.

  1. Políticas preventivas, não repressivas

Segurança não se faz apenas com polícia: é preciso investir em educação, habitação, saúde, cultura, geração de emprego nas periferias. Esses eixos são fundamentais para retirar o combustível da violência.

  1. Formação em direitos humanos

Operações policiais devem estar submetidas a protocolos: legalidade, necessidade, proporcionalidade, precaução e responsabilização — conforme normas internacionais como as da ONU.

  1. Transparência e participação popular

Que moradores de favelas tenham voz nas decisões das políticas de segurança. Que os governos tornem públicos os dados de letalidade, operações, investigações — e prestem contas.

  1. Jurisdição internacional e responsabilização

Há precedentes: o Estado brasileiro já foi condenado pela Corte Interamericana por chacinas passadas (Acari, Nova Brasília). A comunidade internacional pode atuar como força de pressão.

Nas ruas mais arrasadas pulsa a esperança: resistência, memória e exigência de justiça.

Não pode haver normalidade quando corpos negros são tratados como “mais baratos”. Não há política pública ali, há necropolítica.