6 de março de 2026
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Foto: Thiago Gadelha / Ismael Soares

Artigo da professora Marcela Carneiro

Durante seu retorno ao PSDB, em cerimônia realizada em Fortaleza, o ex-governador Ciro Gomes surpreendeu ao chamar o deputado de direita André Fernandes (PL) de “jovem talento”. A frase, aparentemente inofensiva, carrega em si o retrato de uma velha prática política: a tentativa de conciliar interesses antagônicos sob o disfarce do diálogo e da unidade.

Sob a lente da pedagogia histórico-crítica, esse episódio não é um mero gesto de cordialidade — é um sintoma ideológico. A PHC, formulada por Dermeval Saviani, parte do princípio de que a educação (e, por extensão, toda a prática social) é um ato político situado nas contradições de classe. Assim, o elogio de Ciro a um parlamentar alinhado ao conservadorismo expressa o movimento de acomodação das elites políticas diante da crise de legitimidade que o sistema atravessa.

Enquanto o país enfrenta desigualdades estruturais, cortes em políticas públicas e precarização do trabalho docente, o debate político se desloca do campo das necessidades reais do povo para o campo das aparências conciliatórias.

O gesto de chamar um deputado da extrema direita de “jovem talento” traduz o esforço em humanizar o antagonista, como se as diferenças ideológicas fossem meras divergências de opinião-quando, na verdade, representam projetos de sociedade opostos.

A pedagogia histórico-crítica denuncia exatamente esse tipo de neutralização: quando o discurso político se apresenta como “plural” e “maduro”, mas, na prática, reforça a ordem vigente e perpetua a alienação. É o mesmo mecanismo que, na educação, transforma a escola em espaço de reprodução dos valores dominantes, em vez de espaço de conscientização e emancipação.

Portanto, o episódio vai além da política partidária. Ele revela como o bloco histórico de poder busca constantemente se reorganizar para manter seu domínio, apropriando-se de símbolos da juventude e do diálogo para mascarar a luta de classes.

Ciro Gomes, ao elogiar um representante da direita radical, não inaugura um novo tempo de diálogo — apenas reitera a velha pedagogia da conciliação, onde os interesses das classes trabalhadoras seguem subordinados à lógica do capital e da sobrevivência eleitoral.

Em termos pedagógicos, esse movimento é regressivo:

em vez de elevar a consciência crítica do povo sobre as contradições do presente, ele a adormece sob o discurso da harmonia.

🟥 Em síntese:

O “jovem talento” de Ciro não é o prenúncio de renovação, mas a continuidade da velha lição política brasileira: a de que, em nome da governabilidade, se apaga a clareza de classe e se perpetua a pedagogia da conciliação ,aquela que educa o povo a aceitar o que deveria questionar.