
NEGO: A Bandeira da Rebeldia que Mudou o Brasil. Bandeira da Paraíba Créditos: Reprodução
Duas cores. Uma palavra. E uma história carregada de dor, política e resistência. A bandeira da Paraíba, com seu fundo rubro-negro e a palavra “NEGO” escrita em branco, é um dos símbolos estaduais mais emblemáticos do Brasil. Seu significado vai muito além da estética: ela nasceu de um ato de rebeldia contra o sistema político da época e do sangue derramado de um líder.
Criada em 1930 e oficializada em 1965, a bandeira é uma homenagem ao ex-governador João Pessoa, assassinado meses antes da Revolução de 1930, que pôs fim à chamada República Velha. A palavra “NEGO” é uma afirmação de negação, um protesto contra a manutenção do acordo político entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais, conhecido como “Política do Café com Leite”, que dominava a sucessão presidencial.
O assassinato que acendeu a revolução
João Pessoa, governador da Paraíba desde 1928, tornou-se figura central no cenário político nacional ao rejeitar a candidatura de Júlio Prestes, o indicado do então presidente Washington Luís à presidência da República. Pessoa aliou-se à Aliança Liberal, composta por Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, em apoio a Getúlio Vargas.
A recusa de João Pessoa ao “acordo” de sucessão presidencial não foi bem vista pelas elites da época. Em 26 de julho de 1930, ele foi assassinado em Recife por João Dantas, adversário político envolvido em escândalos pessoais expostos por jornais pró-governo.
Apesar do caráter passional do crime, sua morte foi transformada em símbolo de resistência política. Pouco depois, a palavra “NEGO” foi adotada como um lema da Paraíba contra o autoritarismo da República Velha. A revolta culminou em outubro do mesmo ano, quando Getúlio Vargas assumiu o poder com apoio dos Estados rebelados.
NEGO: símbolo de negação e de luta
A bandeira foi adotada informalmente em setembro de 1930, pouco antes da Revolução, e oficializada por decreto estadual apenas em 1965, pelo então governador Pedro Moreno Gondim. O desenho é simples, mas repleto de simbolismo: o preto ocupa um terço da bandeira (representando o luto) e o vermelho, dois terços (ligado à Aliança Liberal, mas também ao sangue derramado). A palavra “NEGO”, conjugação do verbo “negar” na primeira pessoa do singular, foi colocada sobre o campo vermelho em letras brancas.
À época da criação, a palavra era escrita com acento (“Négo”), facilitando a compreensão de seu significado como verbo. Mesmo João Pessoa não tendo usado o termo literalmente, a palavra tornou-se o retrato de sua resistência. É como se, até hoje, o Estado dissesse: “nego submeter-me”.
Entre luto, amor e tragédia
A história por trás da bandeira também envolve personagens trágicos, como Anayde Beiriz, jovem professora e poeta paraibana, amante de João Dantas. Ela foi exposta publicamente por meio de cartas íntimas divulgadas após a invasão da casa de Dantas, atribuída ao governo de João Pessoa. O escândalo culminou com o assassinato e, depois, com o suicídio de Anayde, aos 25 anos, em um convento no Recife. Morreu sozinha, enterrada como indigente.
Dantas também não escapou da tragédia: preso após o assassinato, foi encontrado degolado em sua cela na Casa de Detenção do Recife em outubro de 1930. Oficialmente, o caso foi tratado como suicídio, mas até hoje pairam dúvidas sobre o que realmente ocorreu.
Uma bandeira que fala… e ainda causa discussões
Embora tenha sido aceita como símbolo do rompimento com um regime excludente, a bandeira não está livre de críticas. Alguns paraibanos questionam o fato de que ela exalta apenas um episódio — a morte de João Pessoa — e uma figura política específica, enquanto poderia refletir a cultura, diversidade e força do povo paraibano em toda a sua extensão.
Outros, no entanto, argumentam que o simbolismo do “Nego” ultrapassa o indivíduo e se conecta com um espírito de enfrentamento, coragem e autonomia que marcou a história da Paraíba.
Enquanto outras bandeiras estaduais exibem brasões, flores ou estrelas, a da Paraíba fala. Diz “NEGO” a quem ousa impor sua vontade ao povo. Diz “NEGO” ao silêncio diante da opressão. Diz “NEGO” a uma história escrita apenas pelos poderosos.
E assim, entre o vermelho da coragem e o preto do luto, a bandeira da Paraíba continua tremulando — como símbolo de um povo que, mesmo diante da morte e da injustiça, não se cala.
Fonte: Revista Fórum