
Por José Oberdan Leite, professor
O professor Pedro se dizia, a cada conversa que tinha, ser um bom conhecedor de Língua Portuguesa. E era mesmo, porém, também era detentor de uma pedagogia conservadora e exageradamente versada na aplicação de normas gramaticais. Dizia ele, algumas vezes, que o aluno que não sabia gramática não era aluno e todo aquele que não escrevesse e falasse segundo seus preceitos era considerado um verdadeiro gramaticida. Ele figurava nenhuma relação entre professor e aluno a não ser aquela em que os alunos eram apenas receptáculos dos seus ensinamentos.
Certo dia, ele me contou um fato que me ensinou bastante. Uma de suas boas experiências foi numa sala de 3° ano que era uma das mais exigentes da escola. Era uma turma formada por excelentes alunos que não admitiam professores que fizessem de conta que davam aula. O tempo pedagógico era cobrado fielmente por eles. Dentre tantos havia um aluno em especial – Júnior. Este era tão esperto quanto sarcástico. Tornara-se o grande desafio do professor Pedro, que me contou que numa de suas aulas sobre homofonia de grafemas consonânticos e suas origens, após o encerramento de várias regras aplicadas, Júnior levantou-se e, com a barriga aparentemente alta e demonstrando dores, pediu ao professor para ir ao banheiro. Pedro permitiu, mas ficou observando pela porta da sala. Júnior olhou para trás para ter certeza que o professor Pedro estava olhando e entrou no banheiro. Após algum tempo, Júnior chegou e o professor perguntou:
– Fez o que devia?
Ao que o aluno respondeu:
– Sim, professor. Fui ao banheiro e dei duas descargas. O senhor não percebeu que eu saí com a barriga cheia e estou com ela agora quase vazia?
– Duas descargas? Foi muito assim?
– Uma foi para o xixi que precisava fazer, e a outra foi para descarregar esse monte de coisa que o senhor passou na lousa. É só pra decorar, decorar e decorar. Enche demais. E pra resolver esse negócio de enchimento, basta a gente ir ao banheiro fazer o que precisa, dar uma descarga e resolver o problema.
O aluno Júnior deu duas tapinhas nas costas do professor e completou desdenhando:
– Desculpa aí, fessô. É brincadeira!
O colega Pedro me disse que a brincadeira pesou e se chateou bastante e, durante toda a semana, sentiu-se bastante ofendido com as palavras do aluno Júnior.
Depois de alguns meses, eu encontrei o professor Pedro numa mesa de restaurante esperando uma quentinha e desfrutando de fartas goladas de cerveja. Logo me aproximei dele, cumprimentei-o alegremente e, sem hesitar, relembrei o acontecimento. O professor Pedro me respondeu que tudo aquilo fez com que ele refletisse sobre sua metodologia de ensino. E me surpreendeu encerrando o assunto quando disse:
– O aluno estava correto.
Moral: Estupidez não é cometer erros. É não saber com quais erros aprender.
SOBRE O AUTOR
José Oberdan Leite, barbalhense, é professor formado pela URCA-Universidade Regional do Cariri com formação também em Pedagogia (UCAM) e com Pós-graduação em Língua Inglesa (URCA), Língua Portuguesa (URCA), Psicopedagogia Escolar (FJN), Gestão Escolar Administração, Supervisão e Orientação (UCAM) e Liderança e Coaching (FMJ). Atualmente cursa mestrado acadêmico em Ciências da Educação pelo Instituto Educainter. Atua como servidor público do estado do Ceará na EEMTI Alaide Silva Santos, Juazeiro do Norte-Ceará.Encontrou nas observações e vivências escolares cotidianas o ensino e o aprendizado para a vida.Hoje, tais experiências pedagógicas são transformadas em contos, a fim de que cada leitor, envolto pela esfera da consciência educacional, possa discutir casos, ampliar conhecimentos e transformar, com sabedoria, pessoas.