
Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
Entre 1988 e 2001, a Constituição Federal estabelecia que deputados e senadores só poderiam ser processados criminalmente com autorização prévia da Câmara ou do Senado. Na prática, essa regra funcionava como um escudo de impunidade: em mais de 250 pedidos enviados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nesse período, apenas um processo foi autorizado pelo Congresso. O caso Hildebrando Pascoal foi um dos casos que ajudou a evidenciar o problema, mas a mudança que aconteceu em 2001 resultou de um processo mais amplo de pressão social, judicial e política. Muitos parlamentares agora querem o retorno ao passado da impunidade.
Hildebrando Pascoal, ex-deputado federal pelo Acre e ex-policial militar, entrou para a história política e criminal do Brasil como um dos exemplos mais emblemáticos da mistura entre poder político e crime organizado. Durante a década de 1990, ele chefiou um grupo de extermínio que aterrorizou a região Norte, eliminando adversários e intimidando a população.
O caso mais famoso foi o “crime da motosserra”, em 1996, quando o mecânico Agilson Santos foi brutalmente assassinado e esquartejado vivo com o uso da ferramenta, em represália por desavenças relacionadas ao tráfico de drogas. O episódio ganhou repercussão nacional e tornou Hildebrando símbolo da violência política no Acre.
Entre 1988 e 2001, a Constituição Federal estabelecia que deputados e senadores só poderiam ser processados criminalmente com autorização prévia da Câmara ou do Senado. Na prática, essa regra funcionava como um escudo de impunidade: em mais de 250 pedidos enviados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nesse período, apenas um processo foi autorizado pelo Congresso. O caso Hildebrando ajudou a evidenciar o problema, mas a mudança resultou de um processo mais amplo de pressão social, judicial e política.
Em 2001, o Congresso aprovou uma Emenda Constitucional que alterou o regime das imunidades parlamentares. A principal mudança foi justamente o fim da exigência de autorização prévia para abertura de processos criminais contra deputados e senadores. A partir de então, o STF passou a poder investigar e processar parlamentares diretamente, sem consulta às casas legislativas. A emenda também restringiu outros privilégios, mantendo apenas a imunidade por opiniões, palavras e votos.
Hildebrando foi acusado e condenado por diversos homicídios qualificados, narcotráfico, sequestro e formação de quadrilha armada, comandando um esquadrão da morte responsável por execuções e intimidações. Cassado em 1999 pela Câmara, acumulou penas que somam mais de 100 anos de prisão e cumpriu parte delas em presídios federais de segurança máxima.
O caso permanece como um dos exemplos mais chocantes de como a violência, o crime organizado e a política se misturaram na história recente do Brasil. Outros casos aconteceram.
O debate atual é simples. Nesta semana a Câmara dos Deputados aprovou a chamada PEC da Blindagem, que busca restabelecer a necessidade de autorização prévia para processar parlamentares. Críticos apelidaram a proposta de “PEC da Bandidagem”, afirmando que ela recria um cenário de impunidade semelhante ao que existia entre 1988 e 2001.
Especialistas alertam que a PEC da Blindagem pode recriar um cenário de impunidade semelhante ao período entre 1988 e 2001, quando a autorização prévia do Congresso para processar parlamentares era quase sempre negada.
Diversos juristas têm se manifestado publicamente contra a PEC da Blindagem, aprovada na Câmara dos Deputados em 16 de setembro último. Eles alertam que a proposta representa um retrocesso institucional e ameaça a separação de poderes, além de enfraquecer o sistema de responsabilização penal no país.
Principais críticas de juristas:
- Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do Grupo Prerrogativas, afirmou que a PEC busca obstruir a justiça, dificultando processos judiciais e a prisão de parlamentares ao exigir autorização prévia do Legislativo. (Agência Brasil)
- Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional, e Bruno Salles, advogado, destacam que a proposta amplia a blindagem parlamentar e fere a separação de poderes, permitindo que parlamentares decidam sobre suas próprias investigações e processos criminais. (ICL Notícias)
- Marcelo Aith, advogado criminalista, argumenta que a PEC representa uma ruptura com o espírito republicano da Constituição de 1988, criando um regime de desigualdade jurídica entre cidadãos comuns e políticos profissionais. (Gazeta do Povo)
- Roberto Levianu, presidente do Instituto Não Aceito Corrupção, alerta que a PEC pode paralisar investigações sobre corrupção e desvio de verbas, consolidando a impunidade e abrindo espaço para o crime organizado no Congresso. (Campo Grande News)
Essas manifestações refletem uma preocupação generalizada entre especialistas de que a PEC da Blindagem comprometa a efetividade da justiça e a confiança da sociedade nas instituições democráticas.