6 de março de 2026
setembro amarelo

, Foto: Reprodução/Redes Sociais

Por Marcela Carneiro
Com formação em Pedagogia,
Especialista em Educação do Campo
(Pedagogia Histórico Crítica) pela
Universidade Federal do Ceará – UFC

O Setembro Amarelo se consolidou como a principal campanha de conscientização sobre o suicídio no Brasil. Ele chama atenção para a importância do diálogo, do acolhimento e do cuidado com a saúde mental. Entretanto, limitar a prevenção ao âmbito de um mês específico levanta questionamentos relevantes.

Em primeiro lugar, há o risco de que o tema seja tratado de forma superficial e pontual, reduzindo um problema estrutural e complexo a uma série de palestras, postagens em redes sociais e campanhas publicitárias. A cada outubro, o assunto tende a ser novamente silenciado, sem que mudanças concretas sejam implementadas em políticas públicas de saúde mental.

Além disso, muitas ações dentro do Setembro Amarelo acabam sendo capturadas por um discurso motivacional individualista, que coloca sobre a pessoa em sofrimento a responsabilidade por “procurar ajuda” e “falar sobre isso”, como se a simples atitude de verbalizar fosse suficiente para resolver dores enraizadas em questões sociais, econômicas e culturais. Ignora-se, muitas vezes, que a falta de acesso a serviços de saúde mental, a precarização do trabalho, as desigualdades sociais e a ausência de suporte comunitário são fatores determinantes para o adoecimento psíquico.

Outro ponto crítico é a mercantilização do sofrimento, com empresas e instituições usando a campanha para melhorar sua imagem, sem de fato oferecer condições dignas de trabalho, apoio psicológico a seus funcionários ou políticas reais de prevenção. Isso cria uma contradição: promove-se o discurso da valorização da vida enquanto se mantêm práticas que desumanizam o cotidiano.

Por fim, é preciso destacar que o combate ao suicídio exige mais do que conscientização. É necessário investimento contínuo em políticas públicas de saúde mental, fortalecimento do SUS, ampliação do acesso aos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), formação adequada de profissionais e um olhar crítico sobre as contradições sociais que impactam diretamente o sofrimento humano.

O Setembro Amarelo é relevante por abrir espaço para a discussão, mas seu impacto real depende da capacidade de ir além do simbolismo. Enquanto o suicídio for tratado como uma questão individual e não como reflexo de desigualdades estruturais, a campanha corre o risco de ser mais uma ação de marketing social do que um instrumento efetivo de transformação.