7 de março de 2026
terras raras

Reportagem | Ana Oliveira e Felipe Borges

As terras raras, um grupo de 17 elementos químicos fundamentais para tecnologias avançadas e equipamentos de defesa, se tornaram o novo centro de disputa geopolítica envolvendo o Brasil. Com a segunda maior reserva mundial, o país voltou ao radar dos Estados Unidos após declarações de Donald Trump e recentes negociações diplomáticas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no entanto, reagiu à cobiça estrangeira: “Aqui ninguém põe a mão”.

A ofensiva mais recente partiu de Washington. Representantes do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) foram recebidos nesta semana por Gabriel Escobar, encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. A visita teve como objetivo discutir o interesse norte-americano em firmar acordos com o Brasil para aquisição de minerais estratégicos, em meio a uma disputa comercial intensificada pelas tarifas impostas durante a gestão Trump.

Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), o Brasil detém cerca de 20% a 25% das reservas conhecidas desses minerais no mundo. Entre os principais elementos estão o neodímio, praseodímio, térbio e disprósio — todos indispensáveis na fabricação de ímãs permanentes, utilizados em turbinas eólicas, carros elétricos, computadores, satélites e sistemas de armamento militar.

O valor comercial é proporcional à sua importância estratégica. O quilo de neodímio e praseodímio gira em torno de 55 euros (R$ 353), enquanto o de térbio ultrapassa os 850 euros (R$ 5.460). Para efeito de comparação, o minério de ferro custa cerca de R$ 0,60 o quilo. O alto preço e a demanda crescente colocam os elementos no centro da chamada corrida por minerais críticos.

Hoje, a China domina completamente a cadeia global das terras raras. Produz 70% do total extraído no mundo e concentra também a capacidade de refino e processamento — etapas tecnicamente complexas e indispensáveis para tornar os minerais utilizáveis. A mina de Bayan Obo, no norte chinês, é a maior do mundo e supera largamente os depósitos da Austrália e da Groenlândia.

O monopólio chinês preocupa os Estados Unidos e a União Europeia. Para os elementos mais pesados, a dependência do Ocidente é total: 100% da importação europeia vem da China. A resposta tem sido a formação de estoques estratégicos e o mapeamento de alternativas em territórios aliados ou autossuficientes — como é o caso do Brasil.

Onde estão as terras raras no Brasil?

O mapa das terras raras no Brasil é amplo e se estende por diversas regiões. Uma das principais apostas está na Bacia do Parnaíba, que abrange áreas do Maranhão, Piauí e Ceará. Estudos revelam indícios promissores de depósitos com potencial de extração viável.

Além disso, há registros relevantes de ocorrência de elementos estratégicos nos estados do Amazonas, Minas Gerais e Bahia. A vantagem brasileira vai além do volume: o país conta com matriz energética limpa, estabilidade territorial, tradição mineradora e centros de pesquisa experientes, como os da USP e da UFMG.

Mas talvez a área mais simbólica seja a Elevação do Rio Grande (ERG), uma montanha submersa a 1.200 km da costa do Rio Grande do Sul, no Atlântico Sul. Com tamanho semelhante ao da Espanha, a formação geológica é reivindicada pelo Brasil como parte de sua plataforma continental. Estudos da USP indicam que o solo da ERG possui semelhanças geológicas com o interior paulista e é rico em cobalto, nióbio, lítio e elementos terras raras.

A reação de Lula

Diante do aumento do interesse internacional, o presidente Lula adotou tom firme. Em evento recente, criticou a pressão externa sobre os recursos estratégicos nacionais. “Tem gente achando que o Brasil é terra de ninguém. Mas aqui ninguém põe a mão. Nem no nosso lítio, nem no nosso nióbio, nem nas nossas terras raras”, afirmou.

A fala é parte de uma estratégia mais ampla de reforço da soberania mineral brasileira, diante de um cenário global de escassez e disputa por insumos críticos. A avaliação do governo é que os recursos devem ser usados para agregar valor dentro do país, priorizando parcerias tecnológicas e industriais, e não apenas exportações brutas.

Disputa global

A corrida por minerais estratégicos se insere em uma disputa mais ampla pela liderança nas tecnologias do futuro: baterias, energia limpa, inteligência artificial, infraestrutura militar. Sem os elementos do grupo das terras raras, nenhum desses setores avança.

Por isso, o que está em jogo vai além da exploração mineral: é uma disputa por autonomia, poder e relevância geopolítica. O Brasil, com sua enorme reserva e potencial de refino, está em uma posição decisiva — e agora sob os olhos atentos das potências globais.

Fonte: Pragmatismo Político