
"Tarifa de Trump é golpe contra o Brasil", diz empresário crítico ao bolsonarismo. Créditos: The White House/ Ricardo Stuckert
Por Revista Fórum
Em entrevista à Fórum, o empresário Bruno Sindona, referência no setor imobiliário,fundador da Sindona Incorporadora e conselheiro do CDESS (Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável), criticou duramente a atuação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Paulo Figueiredo na articulação de sanções econômicas contra o Brasil. Para Sindona, a chamada “guerra comercial” impulsionada por Donald Trump é, na verdade, uma disputa geopolítica entre modelos de desenvolvimento, e não uma questão puramente tarifária.
Segundo ele, a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos é “descabida” e representa uma tentativa de sabotagem econômica promovida por figuras da extrema direita. “Estão tentando chantagear o Estado brasileiro por interesse próprio”, afirmou. Sindona acusa o deputado e o comentarista de atuarem contra o país em busca de ganhos eleitorais.
Sindona também analisou a postura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que inicialmente culpou Lula pelo tarifaço, mas depois recuou. Para ele, Tarcísio perdeu força no cenário nacional e pode ter se afastado da disputa presidencial. Sobre Eduardo Bolsonaro, foi categórico: “Não pensa no Brasil nem no próprio pai. Está agindo só por interesse político.”
Bruno Sindona: Na minha opinião, a guerra transcende a questão comercial. Acho que a “guerra comercial” é um estereótipo que o Trump adotou para justificar a guerra política que ele vem travando. O que acontece é muito mais profundo do que isso. O que temos visto é uma guerra de modos de enxergar o mundo, entre Ocidente e Oriente. Na minha opinião, o Oriente fez alguns movimentos, nas últimas décadas, que o colocaram sistematicamente à frente em diversas áreas, como demonstra o crescimento econômico. Em alguns casos, também o crescimento demográfico, e principalmente a velocidade com que o Oriente toma decisões e executa planos. E a guerra americana é contra essa dinâmica — que tem muitas camadas e é muito profunda.
No Brasil, isso se traduz como uma disputa entre direita e esquerda. Veio reverberar aqui dessa maneira, como em outros países do mundo também. E o Trump, por semelhanças, se conecta ao Bolsonaro nisso e acaba traduzindo esse embate em uma “guerra comercial”. É completamente descabida do ponto de vista econômico. Os EUA têm superávit com o Brasil e importam basicamente insumos de consumo. Não faz o menor sentido. O Brasil consome produtos manufaturados e exporta basicamente commodities, ou produtos ligeiramente mais elaborados — com exceção dos aviões.
Fórum: Caso as tarifas de 50% sejam confirmadas no dia 1º de agosto, qual impacto isso pode ter no setor imobiliário?
Bruno Sindona: No setor imobiliário, acredito que o impacto direto não deva ocorrer. Aliás, pode até haver impactos positivos. Por quê? Em uma estratégia mais macro, creio que teremos um impacto inflacionário negativo, especialmente sobre carne, algumas frutas e o café — que subiram muito nos últimos anos. Isso deve pressionar a inflação de consumo no Brasil, o que tende a favorecer a queda dos juros. Se isso acontecer, os juros caem naturalmente, o crédito é estimulado e o mercado imobiliário se acelera.
Claro que isso depende da conjuntura macro e de fatores políticos que podem piorar. Mas, do ponto de vista prático, uma desaceleração econômica pode facilitar a redução dos juros e dos preços dos alimentos — principalmente os perecíveis —, o que impacta diretamente na análise do Banco Central. E, nesse contexto, talvez a proposta do Lula de baratear o preço da picanha acabe se concretizando. Mesmo com pequenas reduções, isso já teria impacto significativo nas projeções do Copom e na trajetória da taxa de juros.
Fórum: E no setor privado como um todo, como está o clima diante da possibilidade de concretização das sanções do governo Trump contra o Brasil?
Bruno Sindona: No setor privado, vive-se uma expectativa política: será que tudo isso vai desandar? Será que os Estados Unidos vão escalar? Eu, particularmente, não acredito que haverá força suficiente para destruir relações bilaterais. O Brasil não é só um país: são mais de 200 milhões de habitantes, uma nação pacífica, com muitos aliados — especialmente entre os BRICS. Impactos aqui reverberam no mundo inteiro, tanto nas exportações quanto no mercado consumidor.
Não vejo, hoje, um cenário de agravamento profundo ou rompimento de relações. Mas, no curto e médio prazo, a tensão pode ajudar a reverter o ciclo de juros — o que seria bom. Claro, se o agravamento ocorrer, esse efeito se torna ínfimo diante do prejuízo. Porém, não ocorrendo uma ruptura mais profunda, acredito que o saldo pode ser positivo.
Tenho percebido uma unificação maior do setor privado em torno dessa discussão. Parece que, finalmente, estamos debatendo o que realmente importa: o mundo está se tornando multipolar, e o Brasil precisa decidir se vai ou não fazer parte disso. Ou se continuará vendo os EUA como única referência de futuro.
Fórum: Como empresário, você consegue imaginar um cenário em que não haja mais transações comerciais entre o Brasil e os EUA?
Bruno Sindona: Acho muito difícil imaginar esse cenário. O Trump não é imperador dos EUA, como disse bem o Lula. Ele não tem esse poder absoluto. Uma conduta agressiva como essa tende a gerar reações internas nos EUA. Eles estão em um momento de congregar, de buscar aliados. E os EUA são muito mais que um governo. Trump ainda tem três anos de mandato pela frente — mas não é eterno. O povo americano, sempre que precisou de fato, tomou decisões claras e concretas no sentido da unidade e do futuro.
Fórum: Qual é a sua avaliação da postura do governo federal diante da investida do governo Trump?
Bruno Sindona: Acho que a postura tem sido acertada. Claro que tudo pode ser melhorado, sempre cabe crítica, mas o Lula tem assumido um papel de estadista. A questão não são os 50% de tarifa em si, mas o movimento mais amplo que o Trump quer fazer: uma interferência política no nosso país — até mesmo no Judiciário. O Lula está, de certa forma, defendendo o Poder Judiciário, que tem se mostrado forte e alinhado à democracia, o que foi essencial para manter o país estável.
Acho positivo também que o governo tenha mobilizado outros atores, como Alckmin e Simone Tebet, para dialogar com o mercado empresarial. São agendas distintas, e há espaço para todos contribuírem. Em nome da soberania nacional, é necessário sim subir o tom e dialogar de igual para igual. Os EUA são mais ricos e mais poderosos, mas o Brasil é uma nação soberana — assim como cada indivíduo é único, cada nação também é.
Fórum: Em um primeiro momento, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, jogou a responsabilidade do tarifaço no colo do presidente Lula. Depois, ele recuou. Como você avalia a postura do governador?
Bruno Sindona: Acho que o Tarcísio se empolgou. Ele ainda não é um político muito habilidoso para lidar com a diversidade. Se mostrou habilidoso no sucesso, mas na adversidade ainda está sendo testado. E viu o tamanho da bobagem que estava fazendo ao reforçar esse comportamento de Trump — como se fosse justo e digno.
Ele recuou, percebeu o erro. Mas a extrema direita — não necessariamente o Tarcísio, mas parte da base que o apoia — tem dificuldade em aceitar recuos. E ele está sofrendo com isso. Teve que recuar, se restabilizar, e acho que o sonho da presidência ficou mais distante. Outros nomes ganharam espaço — Eduardo Bolsonaro, por exemplo, ganhou proeminência, mesmo correndo risco de inelegibilidade. Outros players estão se movimentando enquanto Tarcísio titubeou. O que tenho ouvido é que ele tende a se concentrar mais no estado de São Paulo, inclusive para cuidar dos empresários paulistas — que serão os mais afetados por essas tarifas.
Fórum: O deputado Eduardo Bolsonaro foi aos EUA fazer lobby para que essas sanções acontecessem. Acredita que, caso as tarifas sejam aplicadas, parte do setor privado ainda vai permanecer apoiando o bolsonarismo?
Bruno Sindona: Eduardo Bolsonaro tem se mostrado irresponsável. Não pensa no Brasil, na economia ou nas pessoas. Está agindo apenas em benefício próprio, tentando recuperar a relevância política que já vinha perdendo. Às vezes, acho até que ele não pensa muito nem no pai — porque muitas das ações dele vão reverberar negativamente sobre o próprio Bolsonaro.
Acredito que ele já perdeu boa parte do apoio do setor privado — inclusive do agronegócio. Agora, tentam retomar aquela velha estratégia de mobilizar os caminhoneiros. Mas é uma jogada frágil. Lembramos do que aconteceu na última crise: muito barulho, poucos resultados. Lideranças frágeis, demandas frágeis. O que ele está tentando fazer é chantagear o Estado brasileiro — não só o governo Lula. Quer chantagear a própria nação.
Na minha opinião, essas iniciativas são tentativas de golpe — e, como o golpe anterior não funcionou, essas também não devem funcionar. O Brasil é um país grande e soberano, com apoio internacional e instituições fortes. Vai resistir.