7 de março de 2026
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"Terra Estrangeira" é dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas | Foto: Divulgação

Uma fotografia encontrada na capa de um livro, onde se via um casal à deriva, encalhado numa praia deserta como um navio emborcado na areia. Assim nasceu Terra Estrangeira, no imaginário de Walter Salles. O filme luso-brasileiro de 1996 foi dirigido por ele em co-parceria com Daniela Thomas.

Uma imagem em preto e branco me veio à cabeça: a de dois jovens frente à um navio emborcado na areia, num país distante. Pouco a pouco, foi ficando claro que aquela cena refletia formas distintas de exílio: político, econômico, afetivo”, explicou o cineasta quando foi perguntado sobre a foto que deu origem a tudo.

O filme foi considerado um dos 100 melhores do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Ao lado de Carlota Joaquina: Princesa do Brazil e O QuatrilhoTerra Estrangeira foi um marco na reestruturação do cinema nacional porque, naquela época, vivíamos tempos obscuros, marcados pelo corte radical de incentivos à produção cultural, providos pelo então presidente Fernando Collor. Foi nesse cenário de terra arrasada que nasceu, então, Terra Estrangeira.

Selecionado pelo festival de Roterdã, uma grande vitrine do cinema autoral, o filme era a primeira produção brasileira a participar desta competição em muitos anos. Terra Estrangeira conta a história do jovem Paco (Fernando Alves Pinto) que resolve migrar para Portugal e se encontra com Alex (Fernanda Torres). Juntos se envolvem com pessoas perigosas e tentam uma fuga alucinada para a Espanha.

O filme sintetiza o sentimento de desilusão que tomou conta do país na época, sendo muito bem traduzido pela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho. Essa estética bicolor é, na verdade, também protagonista, porque fala de um Brasil frio e opaco. Um país vivenciando, de fato, o espírito de estar à deriva. O preto-e-branco adotado pelo diretor de fotografia, retira todo os adereços, as distrações, e foca naquilo que é o essencial: a realidade seca dos personagens, párias em terra estrangeira.

O filme foi bem aceito pela crítica e pelo público em geral, marcando o reinício do cinema brasileiro no cenário dos festivais internacionais. Acabou vencedor do Prêmio Golden Rosa Camuna como Melhor Diretor; Grand Prix, Melhor Filme Estrangeiro; Margarida de Prata, Melhor Filme; e troféu APCA, Melhor Roteiro.

Terra Estrangeira x Terra Arrasada 

Podemos dizer que a imagem de um navio encalhado numa praia, que acabou inspirando o filme Terra Estrangeira, era a metáfora ideal para o Brasil em meados de 1990.

O momento histórico da criação do filme foi marcado pela completa desilusão nacional.

O Brasil, presidido por um falso caçador de marajás, acabou se perdendo em meio à inflação descontrolada e medidas econômicas caóticas, com aumento claro no nível de pobreza da população.

O presidente Fernando Collor também opta por atacar a cultura e a educação. Em março de 1990, ao assumir a Presidência da República extinguiu o Ministério da Cultura. Um mês depois, o Programa Nacional de Desestatização deu fim à Embrafilme e, do dia para a noite, toda a estrutura que mantinha a indústria de cinema foi desestruturada.

Houve, inclusive, o confisco da poupança de todos os brasileiros, que acabou por provocar um aumento na taxa de suicídio e fuga do país, ou seja, a busca por uma maior estabilidade em terra estrangeira. Fica claro, aqui, o sentimento de completa deriva do povo brasileiro, o que justifica a metáfora do barco que deu origem a filme.

Há terreno fértil para um Terra Estrangeira, segunda temporada?

Como dizia Karl Marx, a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.

Terra Estrangeira não esconde os motivos para o qual foi filmado. Ele vivifica os anseios de um país em declínio e, por conseguinte, remonta os sonhos de seu povo, em meio a transformações vitais.

O filme possui uma potência singular, por mostrar um mundo dividido, fracionado. A desilusão é latente, seja no comportamento dos personagens, especialmente dos protagonistas, como no acúmulo de empecilhos que surgem durante a trama, dando margem à prevalência da obscuridade, de forças nefastas.

Recém liberto do julgo da ditadura civil-militar, e, portanto, sem nortes muito claros, o Brasil daquela época se refazia dos escombros, ansiando por melhores perspectivas pós redemocratização. Esse é o alicerce do filme, com todos os seus desdobramentos.

Texto de Por Karina Braga | Culturadora

Site Culturadoria.com.br