
Foto: Reprodução/Looke
Robert De Niro recusou o papel de Andreas Kartak por não se sentir convencido pelo projeto. Foi então que o diretor Ermanno Olmi viu Rutger Hauer em A Morte Pede Carona e, impressionado por sua expressividade silenciosa, o escalou. Mesmo com a barreira da língua — Hauer mal falava italiano, e Olmi não sabia inglês — os dois se entenderam com rara sintonia. Entre tantos personagens que interpretou, este se tornaria um dos favoritos do ator holandês.
Baseado na novela de Joseph Roth, A Lenda do Santo Beberrão (1988) acompanha Andreas, um morador de rua na Paris dos anos 1930. Ele recebe 200 francos de um desconhecido, com a condição de devolver o valor à santa Teresa de Lisieux quando puder. Preso ao alcoolismo e ao peso de lembranças, Andreas tenta cumprir a promessa, mas é constantemente desviado. A trama simples logo revela uma fábula amarga sobre fraqueza, fé e redenção.
Inicialmente pensado para Marcello Mastroianni, o papel exigia contenção. Conhecido por personagens intensos como Roy Batty em Blade Runner, Hauer surpreendeu com uma atuação delicada, contida e cheia de nuances. Seu olhar carregava culpa, ternura e resistência. Mesmo belo demais para o papel, parecia alguém destruído por dentro. “Dar corpo a uma alma afundando em silêncio”, foi como o ator descreveu essa entrega.
Nos bastidores, a produção foi precisa e discreta. O roteiro, adaptado por Olmi e pelo crítico Tullio Kezich (biógrafo de Fellini), manteve a essência da novela com alterações pontuais, como transformar um jogador de futebol em boxeador. A estética, marcada por silêncios e planos longos, resgata um cinema europeu lírico e sombrio, quase fora do tempo.
Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, o filme não teve o reconhecimento crítico que merecia. Talvez por parecer antiquado. Mas sua força está justamente nisso: confiar nos gestos mínimos, nas palavras não ditas. Como Joseph Roth — que escreveu a novela pouco antes de morrer — Olmi e Hauer entregaram um retrato tocante sobre promessas frágeis e humanidade ferida.
Fonte: Filmoscopio