
Ilustração: Leia Sempre Brasil
Nos primeiros dias de abril do ano em curso publicamos nessa coluna reflexões sobre o exercício da democracia interna no Partido das Trabalhadoras/es. Voltamos ao tema, pois temos a oportunidade de explorar um pouco mais sobre a elaboração do Processo de Eleições Diretas (PED). Está previsto no Estatuto do PT e até onde sabemos é o único partido do mundo que possui seu próprio Regulamento do PED. O processo tem como objetivo promover a renovação das suas direções municipais, estaduais e nacional, por meio do voto direto dos seus filiados e filiadas. Ao longo do tempo coube a militância o importante papel de debater e propor reformulações importantes sobre a garantia das representações de gênero, juventude e étnico racial na composição dos diretórios. As direções partidárias, delegações e cargos com função especifica de secretarias deverão ter paridade de gênero (50% de mulheres e 50% de homens), garante a cota de 20% de juventude e 20% étnico racial. O mandato tem a duração de quatro anos.
A nossa primeira tentativa de incentivar o protagonismo da mulher frente a organização partidária no diretório municipal de Juazeiro do Norte, ocorreu no PED/2001, logo depois das eleições municipais de 2000, onde fui a principal protagonista no debate e na disputa local ao executivo municipal. Havíamos acumulado um importante capital eleitoral, embora não tenhamos alcançado êxito nas urnas para eleger a primeira mulher prefeita pelo PT em Juazeiro, todavia elegemos os primeiros legisladores de esquerda para Câmara de Vereadores. Contudo foi naquele processo do PED que percebi a influência da cultura machista e a dificuldade de parte dos nossos dirigentes ao vislumbrarem à nossa candidatura. Resolvi declinar em nome do consenso e da tão aclamada unidade partidária.
No PED/2009 participei como candidata à presidência do PT Ceará, numa aliança da Democracia Socialista e a corrente Mensagem ao Partido que lançou o ex-secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo, a presidência nacional do PT. Naquela ocasião fui a única mulher disputando a direção estadual e competindo com mais cinco candidatos homens. Venceu o candidato representando o campo majoritário do PT Ceará. Passaram-se alguns anos e o PED continua sendo esse espaço necessário ao amplo debate para avaliar os rumos do partido; a ameaçada autonomia de suas instâncias tuteladas pelos parlamentares, e, os instrumentos de consulta para garantir a participação real da sua base de filiados/as; a reconstrução das relações de compromisso com a luta da base social e comunitária.
O PT precisa se reconciliar com seus princípios fundantes e se reafirmar como um partido que defende o socialismo e combate o neoliberalismo fruto do capitalismo; precisa propor um novo modelo de desenvolvimento sustentável, solidário e agroecológico que aponte saídas para atual crise climática que assola o Brasil, as regiões e o planeta terra. Isso é urgente! O partido da classe trabalhadora não pactua com as elites, precisa debater ideias e combater o senso comum; defender o fim da escala de trabalho 6X1 que traz mais saúde, bem-estar e equilíbrio na vida pessoal e profissional dos trabalhadores/as; fazer a defesa da taxação dos super ricos, afinal estudos realizados por especialistas e divulgados em 2024, revelam o impacto de R$ 260 bilhões que deixam de ser arrecadados por ano.
Lutamos por um PT com mais mulheres nos espaços de decisão e um amplo processo formativo de educação em gênero, diversidade, igualdade racial e juventudes. Democracia significa pessoas conscientes, organizadas e mobilizadas.