Munição sem número, como defende Flávio Bolsonaro, ajuda crime organizado e impunidade

Como caracterizar um candidato à presidência de um país desafiado por organizações criminosas, que diz ter “tolerância zero” com bandidos, mas defende que munições não precisam ser rastreáveis? No mínimo, daria para se questionar de que lado, de fato, ele está. É exatamente esta a situação em que se encontra o senador Flávio Bolsonaro (PL), que almeja ocupar o principal cargo da República.
A entrevista concedida pelo candidato à TV Globo no último dia 16 trouxe à tona um assunto que a maioria das pessoas desconhece: Flávio apoiou um projeto de lei apresentado ao Congresso Nacional pelo governo de seu pai, Jair Bolsonaro (PL), em 2019, que entre outros pontos prevê o fim da exigência legal de marcação identificadora de munições adquiridas por órgãos de segurança pública.
Na sabatina, Renata Lo Prete questionou a posição de Flávio sobre a proposta. Primeiro, ele fugiu da pergunta falando sobre outras questões relativas a segurança pública. Após a jornalista insistir, ele tratou o assunto como um “detalhezinho” e disse que isso seria “uma coisa muito menor ante o problema que o Brasil tem”.
A frase mostra bem o desprezo que Flávio Bolsonaro tem pela vida e pela lei. Além disso, o aproxima mais uma vez daquilo que é conveniente a grupos armados como os do tráfico e as milícias — pelas quais sempre demonstrou, no mínimo, simpatia.
A importância da numeração desprezada por Flávio
Hoje, nem todas as munições fabricadas no Brasil são numeradas. Somente as compradas pelas polícias são obrigadas, por lei, a ter essa identificação. Isso, por si só, já é uma falha grave. Afinal, o número impresso nas munições ajuda a investigar um assassinato, identificar se uma determinada bala partiu de uma arma originária das forças de segurança e se essa arma foi roubada, entre outros aspectos relevantes.
Apesar de não haver rastreabilidade total das munições, o Instituto Sou da Paz conseguiu colher dados relevantes sobre o assunto, compilados no estudo recém-publicado “De onde vem o tiro”. Nele, foram analisados 31.699 cartuchos vinculados ao Comando Vermelho, distribuídos em 29 casos processados judicialmente entre 2018 e 2025.
Uma das revelações trazidas pelo levantamento é que quase 52% das munições de fuzil de fabricação brasileira apreendidas e vinculadas ao CV nesse período foram compradas originalmente pelas Forças Armadas ou por instituições de segurança pública, como as polícias.
Mas há casos também diretamente ligados às milícias. Um exemplo foi mostrado em reportagem de 2025 do Intercept Brasil, que identificou munições utilizadas por milicianos do Bonde do Ecko, de Itaguaí (RJ), provenientes de lotes adquiridos pelas polícias Militar e Civil do Rio, pelo Exército, Marinha e Aeronáutica e por outras instituições públicas.
Cabe lembrar, ainda, que, com a política de Jair Bolsonaro que ampliou o acesso de civis a armas de fogo e a um alto número de munições, aumentaram os casos de armas roubadas ou desviadas dos CACs (Caçadores, Atiradores e Colecionadores) que passaram a alimentar grupos criminosos.
Nesse sentido, o instituto defende que, em vez de retirar mecanismos que permitam investigações sérias, “o Brasil deveria discutir a marcação de todas as munições para tornar o esclarecimento de crimes e de desvios do mercado legal e ilegal e a segurança pública brasileira ainda mais forte”. Essa marcação, explica o estudo, deve preservar “a vinculação entre sublote, embalagem, venda e comprador” e “incluir o ano de fabricação como marca obrigatória”.
Portanto, quando o assunto é combater a violência (inclusive a policial) e o crime organizado, a rastreabilidade das munições está longe de ser algo menor, como insinuou Flávio.
“Tratar esse mecanismo como burocracia descartável não apenas enfraquece a elucidação de crimes, mas garante proteção prévia a redes de corrupção que desviam arsenais oficiais para o crime organizado”, explica Roberto Uchôa, doutorando no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e associado sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil.
Uchôa destaca, ainda, que “ao tratar a rastreabilidade como um ‘detalhezinho’, o discurso punitivista revela que não tem planos reais contra o crime. Criar um apagão sobre a origem das balas não protege o cidadão de bem; apenas garante que o crime organizado continue armado até os dentes sem deixar rastros”.
fonte: Portal Vermelho