Segundo turno leva campanha de Lula a intensificar comunicação e mobilização popular

A campanha do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, impõe à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) uma mudança de estratégia. Com menos tempo para conquistar votos, a campanha petista passou a apostar em uma comunicação mais incisiva nas redes sociais, ao mesmo tempo em que busca ampliar a presença nas ruas e retomar o diálogo direto com setores da população.
A avaliação é do cientista político Francisco Fonseca, professor da PUC-SP e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em entrevista ao programa Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Para Fonseca, a esquerda precisa compreender que a disputa política também acontece no ambiente digital. A extrema direita, segundo ele, conseguiu ocupar esse espaço de maneira agressiva e permanente, especialmente entre os eleitores mais jovens. O desafio, entretanto, é utilizar as redes sociais sem reproduzir a estratégia baseada em desinformação.
O cientista político defende uma comunicação mais direta e incisiva por parte do campo progressista. Para ele, não se trata de abandonar a militância tradicional ou a presença física nos bairros, sindicatos, movimentos sociais e comunidades, mas de combinar essas formas de mobilização com uma atuação mais eficiente nas plataformas digitais.
A avaliação é que a esquerda ainda possui dificuldades para dialogar com parte da juventude utilizando a linguagem própria das redes. Enquanto setores da direita conseguiram transformar vídeos curtos, memes e conteúdos de forte apelo emocional em instrumentos políticos, os partidos progressistas ainda procuram uma fórmula capaz de disputar esse território.
Fonseca, porém, estabelece uma diferença fundamental: a comunicação política não pode ser construída sobre mentiras ou mundos paralelos.
A estratégia, portanto, seria ampliar a presença digital sem abandonar princípios como a defesa da democracia, da verdade e da informação responsável.
Outro desafio decisivo para o segundo turno está no eleitorado que não participou da votação no primeiro turno. Segundo os dados citados na entrevista, cerca de 33 milhões de brasileiros deixaram de votar.
Esse contingente passou a ser considerado estratégico para as duas campanhas. Para o campo lulista, o desafio não é apenas convencer quem votou em outros candidatos, mas também estimular parte dos eleitores que se abstiveram a retornar às urnas no dia 25.
Na avaliação de Fonseca, essa mobilização precisa ir além de uma simples convocação eleitoral. É necessário apresentar ao eleitor uma discussão concreta sobre qual projeto de país está em disputa.
A defesa da democracia, da paz social e das instituições deve estar acompanhada de exemplos capazes de fazer sentido na vida cotidiana da população.
O cientista político também defende que a campanha seja feita nas conversas do dia a dia. Família, vizinhança, trabalho, comunidades, sindicatos, associações e movimentos populares podem se transformar em espaços de esclarecimento político.
A ideia é apresentar de maneira simples as consequências práticas das propostas dos candidatos.
Nesse contexto, Fonseca critica a utilização de discursos genéricos sobre cortes de gastos. Na sua avaliação, quando um candidato fala em reduzir despesas públicas sem explicar quais áreas serão atingidas, o eleitor pode interpretar a mensagem de maneira equivocada.
A disputa, portanto, também passa por explicar o que significa, na prática, reduzir investimentos públicos e quais programas sociais, serviços de saúde e políticas públicas poderiam ser afetados por determinadas escolhas econômicas.
A principal conclusão da análise é que a campanha de Lula precisa combinar duas frentes que não devem ser tratadas como alternativas: a comunicação digital e a mobilização presencial.
A internet permite alcançar milhões de pessoas rapidamente, especialmente os mais jovens. As ruas, por outro lado, possibilitam o contato direto, a escuta e a construção de confiança.
Para a esquerda, o desafio do segundo turno será transformar essa combinação em votos no dia 25 de outubro.
A disputa não será apenas entre duas candidaturas. Será também uma disputa pela capacidade de comunicação, pela mobilização dos eleitores, pela redução da abstenção e pela definição do debate público sobre democracia, políticas sociais, economia e futuro do Brasil.
Nesse cenário, a campanha petista terá poucos dias para transformar sua presença nas redes e nas ruas em uma mobilização eleitoral capaz de decidir o segundo turno.