Bebê do Ceará recebe coração após seis meses entre hospitais
Heitor nasceu com cardiopatia congênita, passou por cinco hospitais e recebeu um novo coração em operação que mobilizou ao menos 30 profissionais.

Heitor Sousa Gonçalves passou os primeiros seis meses de vida entre unidades de saúde até receber um novo coração no Hospital de Messejana, em Fortaleza. Nascido em São Benedito, na Serra da Ibiapaba, o bebê veio ao mundo com uma cardiopatia congênita e precisou enfrentar duas cirurgias antes do transplante, uma delas quando tinha apenas sete dias. A operação abriu uma nova etapa de recuperação para uma criança que ainda não havia vivido fora do ambiente hospitalar.
O percurso incluiu cinco hospitais, três deles fora da capital. Quando Heitor entrou na lista de espera, a família precisou se mudar para Fortaleza para permanecer perto da unidade transplantadora. A exigência está relacionada ao tempo curto entre a confirmação de um órgão compatível e o início da cirurgia. No transplante cardíaco pediátrico, idade, peso, tipo sanguíneo, tamanho e condições clínicas do coração doado são avaliados antes de a equipe comunicar a possibilidade à família receptora.
A autorização da família doadora tornou possível o procedimento e também permitiu a retirada de rins para outros pacientes infantis. A identidade do doador permanece protegida, como determina a legislação. A decisão ocorre em um momento de luto e sustenta toda a cadeia de transplantes: sem o consentimento familiar, o órgão não pode ser destinado a quem espera. Por isso, conversar sobre doação em vida ajuda parentes a conhecerem a vontade de cada pessoa.
Uma operação contra o tempo
Depois da autorização e da confirmação da compatibilidade, equipes de dois hospitais mantiveram comunicação contínua. O coração foi retirado, preservado em recipiente esterilizado e transportado sob escolta até Messejana. Esse órgão tolera pouco tempo fora do corpo, e o chamado período de isquemia pode chegar a cerca de quatro horas. A cirurgia de Heitor durou quase cinco horas e envolveu pelo menos 30 profissionais, entre médicos, enfermeiros, técnicos, motoristas, agentes de trânsito e equipes administrativas.
A operação não encerrou os riscos. Nas primeiras horas, medicamentos e suporte intensivo ajudaram o novo coração a funcionar e reduziram a reação do sistema imunológico. O tratamento busca um equilíbrio delicado: imunossupressão insuficiente favorece a rejeição, enquanto doses excessivas aumentam a vulnerabilidade a infecções. Heitor se recuperou no Hospital de Messejana e depois no Hospital Universitário do Ceará, para onde foi transferido após a mudança do serviço de cardiologia pediátrica.
O transplante teve êxito, mas o acompanhamento continua. O bebê também passou por investigação de dificuldades de deglutição e paralisia das cordas vocais. A rede pública precisa garantir consultas, exames, medicamentos e reabilitação de longo prazo para transformar a cirurgia em qualidade de vida. O Sistema Nacional de Transplantes coordena a lista única, a distribuição de órgãos e a atuação das centrais estaduais, com critérios técnicos e clínicos para reduzir desigualdades no acesso.
A história de Heitor mostra como ciência, organização do SUS e solidariedade familiar precisam funcionar ao mesmo tempo. Ela também preserva o lugar da família doadora, que enfrentou uma perda irreparável e autorizou novas chances de vida. Para quem deseja ser doador, o passo mais importante é comunicar essa decisão aos familiares, responsáveis pela autorização quando ocorre a morte encefálica confirmada segundo os protocolos legais.
Com informações do Diário do Nordeste