28 de junho de 2026
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Cena do filme "Uma Voz Chamada Francisca" / Lamarck Promoções/ Divulgação

Há décadas, moradores do Cariri caminham até o local onde uma jovem foi assassinada para deixar flores, velas e pedidos.A história de Francisca Augusto da Silva, morta aos 16 anos pelo ex-noivo na década de 1950, ultrapassou o registro policial para ocupar um espaço singular na religiosidade popular cearense.Conhecida como “Mártir Francisca”, ela se tornou símbolo de devoção para milhares de pessoas. Agora, essa memória ganha novo alcance por meio do cinema.

Longa “Uma Voz Chamada Francisca”Gravado em Aurora, município onde a história aconteceu, o longa-metragem “Uma Voz Chamada Francisca” foi selecionado para o Festival Internacional FestCine Pedra Azul, que será realizado nos dias 25 e 26 de setembro, no distrito de Pedra Azul, em Domingos Martins, na região serrana do Espírito Santo.Entre mais de 1.500 filmes inscritos de diferentes países, a produção cearense conquistou uma vaga na programação do evento.

rado em fatos reais, o longa acompanha o romance entre Francisca e Chico, um jovem de família tradicional. Após o pai da adolescente recusar o pedido de casamento, por entender que a filha mais velha deveria se casar primeiro, Chico decide romper o relacionamento.Francisca aceita o fim do namoro com alívio, mas o ex-noivo volta atrás e passa a insistir em uma reconciliação. A perseguição culmina em um desfecho trágico que transformaria a jovem em uma das figuras mais conhecidas da devoção popular do Cariri.

Para o diretor Lamarck Dias, a seleção representa um reconhecimento que ultrapassa a conquista individual do filme. “É uma espécie de premiação. Levando em conta o número de inscritos, o nível dos jurados e por ser uma obra feita quase que na guerrilha, é um sinal de que podemos acreditar que estamos cheios de talentos precisando apenas de oportunidades e investimento”, afirma.O cineasta admite que imaginava uma recepção principalmente regional, devido ao forte vínculo da narrativa com a religiosidade do Cariri. A seleção para um festival internacional, porém, reforçou o potencial universal da história.

“Apesar de cultural pela questão religiosa, ela também é universal pela brutalidade dos fatos. O feminicídio continua estampando os jornais do Brasil e do mundo. As histórias mudam de lugar, mas o enredo parece sempre o mesmo”´, lamenta Lamarck.Da infância às telasO interesse de Lamarck pela trajetória de Francisca nasceu ainda na infância. Crescido em Aurora, ele recorda as histórias ouvidas da avó, Dona Fransquinha de Vicente Jerônimo, sobre “A Moça”, como era conhecida entre os moradores.Mais tarde, ao participar das atividades da Igreja Católica, passou a acompanhar a tradicional caminhada realizada no dia 9 de cada mês até o local onde Francisca foi assassinada.

Antes de chegar ao cinema, a narrativa foi levada ao teatro em apresentações comunitárias durante os festejos religiosos da cidade.O desejo de transformá-la em longa-metragem amadureceu ao longo dos anos, até ganhar forma em uma produção que buscasse preservar a identidade local e, ao mesmo tempo, dialogar com questões contemporâneas.”O filme nasceu para chamar atenção para minha cidade, estimular o desenvolvimento econômico por meio do turismo religioso, mas também provocar a sociedade sobre a violência contra a mulher”, conta o diretor.Para construir o roteiro, desenvolvido ao lado da roteirista Vaniele Oliveira, a equipe pesquisou relatos transmitidos oralmente por gerações, consultou os livros “Paixão e Sangue de Mártir Francisca”, de Rozanne Quezado, e “Venda Grande D’Aurora”, de João Tavares Calixto Júnior, além do processo criminal da época, que reúne informações sobre o assassinato e a prisão de Chico Belo.Antes da santa, a vítimaEmbora a devoção popular seja um dos elementos centrais da narrativa, Lamarck afirma que a principal preocupação foi evitar romantizar a tragédia.”O subtítulo do filme já faz essa provocação: ‘Antes de virar santa, foi vítima’. Precisamos olhar para Francisca não apenas como mártir, mas como uma jovem que teve sua vida interrompida por um crime que continua fazendo vítimas diariamente”, destaca.No filme, Francisca é retratada como uma jovem forte, decidida e fiel às próprias convicções. Segundo o diretor, a participação de Vaniele Oliveira na escrita do roteiro foi fundamental para construir um olhar feminino sobre a personagem.”A narrativa foi construída em cima de uma menina forte, decidida e valente, que não se curvou nos momentos mais difíceis”, reafirma.Para ele, o cinema precisa ir além do entretenimento e contribuir para ampliar o debate sobre a violência contra a mulher. “A arte tem o dever de provocar. Muitas vezes a vítima está assistindo ao filme. Precisamos conversar sobre isso nas escolas, com meninas e também com os meninos, para construir prevenção”, explica.

Cinema feito pela comunidadeRealizado com recursos limitados, “Uma Voz Chamada Francisca” mobilizou praticamente toda Aurora. O longa recebeu R$40 mil por meio da Lei Paulo Gustavo, valor que, segundo o diretor, esteve muito abaixo do necessário para uma produção dessa dimensão.Além do incentivo público, a equipe contou com o apoio de empresários locais, amigos e instituições como a Fundação José Alves Magalhães, a Academia Aurorense de Letras e Artes e o Instituto Queiroz Jereissati. Ainda assim, as gravações chegaram a ser interrompidas durante três dias por falta de recursos.O elenco também traduz esse espírito colaborativo. Atores profissionais dividiram cena com artistas locais e moradores da cidade, muitos deles preparados durante meses antes do início das filmagens

“O filme colocou a própria comunidade no centro do processo criativo. Foi uma troca muito bonita e solidária”, comemora.As gravações aconteceram em locais onde a memória de Francisca permanece viva. Para a equipe, filmar nos cenários reais tornou o processo ainda mais emocionante.”A religiosidade faz parte do cotidiano das famílias do Cariri. Em diversos momentos, toda a equipe se emocionou durante as gravações”, lembra.Além da participação no FestCine Pedra Azul, o longa segue inscrito em outros festivais brasileiros e deve chegar nos próximos meses à plataforma de streaming Lumine.tv. Para Lamarck Dias, independentemente dos prêmios, a maior conquista já aconteceu.”Ver uma obra feita no interior do Ceará, construída a muitas mãos e carregando a identidade cultural da nossa comunidade chegar a um festival desse porte mostra que existe produção cinematográfica potente muito além dos grandes centros”, destaca.

Fonte: jornal O Povo

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