
Foto: Reuters
Curaçao conquistou neste sábado um dos resultados mais marcantes de sua história esportiva ao empatar por 0 a 0 com o Equador, em Kansas City, nos Estados Unidos, e somar seu primeiro ponto em uma Copa do Mundo. O protagonista da partida foi o goleiro Eloy Room, que teve atuação decisiva e transformou uma noite de forte pressão equatoriana em celebração para a menor nação já classificada para a fase final do Mundial.
As informações são da Reuters, em reportagem assinada por Lori Ewing. Seis dias depois de sofrer uma dura derrota por 7 a 1 para a Alemanha em sua estreia na Copa, Curaçao reagiu com organização, resistência e uma atuação histórica de seu goleiro de 37 anos, que fez 15 defesas — recorde para uma partida de Copa do Mundo disputada em 90 minutos.
O empate deixou Equador e Curaçao com um ponto cada após duas rodadas no Grupo E. O resultado também confirmou a Alemanha como líder da chave. Para os equatorianos, que chegaram ao torneio embalados por uma sequência invicta de 19 jogos, o 0 a 0 foi recebido como frustração. Para Curaçao, foi uma noite de afirmação.
Eloy Room transforma pressão em noite histórica
Eloy Room, que atua pelo Miami FC, da USL Championship, já havia sido decisivo nas Eliminatórias, quando sua atuação sem sofrer gols contra a Jamaica, em novembro, selou a classificação de Curaçao para o Mundial. Diante do Equador, porém, o goleiro foi além: segurou uma pressão constante, evitou gols em chances claras e entrou para a história do torneio.
O recorde absoluto de defesas em uma partida de Copa ainda pertence ao norte-americano Tim Howard, que fez 16 intervenções contra a Bélgica nas oitavas de final de 2014. Mas o feito de Howard ocorreu em um jogo com prorrogação. Em partidas encerradas no tempo normal, Room estabeleceu uma nova marca.
A primeira grande intervenção veio logo aos três minutos. Enner Valencia apareceu cara a cara com o goleiro, em uma chance clara para abrir o placar, mas Room se lançou para defender com uma das mãos e mandar a bola para fora, junto à trave. A jogada deu o tom da noite.
Depois disso, o Equador seguiu acumulando finalizações e oportunidades, mas encontrou um goleiro inspirado. A cada defesa, a confiança de Curaçao crescia, enquanto a impaciência dos equatorianos aumentava.
“Este foi um esforço de equipe”, diz Room
Após a partida, Room reconheceu a carga emocional do momento e destacou que ainda precisava assimilar o tamanho do feito.
“Eu ainda tenho que processar isso. A partida é cheia de emoções. Eu sabia que seria um jogo difícil. A primeira defesa deu o tom, também para a equipe”, afirmou o goleiro.
Ele também ressaltou que sua atuação individual só foi possível pela entrega coletiva de Curaçao, que lutou até o fim para garantir o empate.
“Isso me deu confiança e eu cresci, todos nós crescemos, este foi um esforço de equipe. Nós lutamos, lutamos até o último minuto. Ganhar um ponto dessa forma para Curaçao é absolutamente ótimo”, disse Room.
A fala sintetizou o sentimento de uma seleção que havia sido duramente criticada após a goleada sofrida contra a Alemanha, mas que conseguiu reagir em poucos dias diante de um adversário mais experiente e tecnicamente superior.
Equador domina, mas esbarra na falta de eficiência
O Equador teve amplo domínio ofensivo. Foram 28 finalizações contra 10 de Curaçao, segundo a Reuters. A equipe sul-americana pressionou durante boa parte da partida, empurrou o adversário para o campo de defesa e contou com apoio majoritário nas arquibancadas.
A torcida equatoriana, em número muito maior que a de Curaçao, entoou várias vezes o canto “Sí se puede!” — “sim, é possível”. Mas, com o passar dos minutos, a confiança inicial deu lugar à tensão. As chances desperdiçadas e as defesas de Room transformaram a expectativa de vitória em incredulidade.
Nos minutos finais, Angelo Preciado quase marcou em chute de longa distância, mas a bola acertou a parte superior do travessão. Foi mais um lance que fez a torcida de Curaçao respirar aliviada e aprofundou a frustração equatoriana.
Quando o apito final soou, os jogadores de Curaçao correram em direção a Room para comemorar. Do outro lado, os torcedores do Equador permaneceram em silêncio, conscientes de que uma partida considerada vencível havia escapado.
Beccacece lamenta, mas diz que disputa não acabou
O técnico argentino Sebastián Beccacece, comandante do Equador, lamentou a falta de eficiência ofensiva de sua equipe, mas tentou manter o foco na sequência da competição.
“A equipe está procurando todos os caminhos para avançar. Claro, não conseguir marcar esta noite é algo que cria desconforto. Não conseguimos criar alegria para a equipe, nem para nossos torcedores”, afirmou.
Beccacece também disse que a frustração precisa ser transformada em aprendizado para os próximos compromissos.
“Mas a vida me ensinou que é preciso sempre continuar trabalhando, sempre aprender, e os desafios podem se tornar oportunidades. É normal agora sentir esta dor, esta decepção, mas isso ainda não acabou”, declarou.
O Equador, que disputa sua quinta Copa do Mundo, havia estreado com derrota por 1 a 0 para a Costa do Marfim, após sofrer um gol nos minutos finais. Com apenas um ponto em duas partidas, a seleção sul-americana passou a depender de uma reação na rodada seguinte para manter viva a esperança de avançar.
Curaçao desafia previsões sobre expansão da Copa
A campanha de Curaçao ocorre em meio ao debate sobre a ampliação da Copa do Mundo de 32 para 48 seleções. Quando a Fifa aprovou a mudança, críticos alertaram que o torneio poderia ser enfraquecido por uma sequência de confrontos desequilibrados e placares elásticos.
A derrota por 7 a 1 de Curaçao para a Alemanha, em sua estreia, parecia reforçar esse argumento. Mas o empate contra o Equador ofereceu uma resposta diferente. A menor nação já classificada para um Mundial — com cerca de 156 mil habitantes — mostrou capacidade de competir, resistir e frustrar uma seleção tradicional da América do Sul.
O resultado reforça a percepção de que a distância entre potências do futebol e seleções emergentes pode ser menor do que muitos imaginavam. Mesmo submetida a forte pressão, Curaçao conseguiu se organizar defensivamente, sobreviver a 28 finalizações e sair de campo com um ponto histórico.
Para uma seleção estreante, que havia sofrido uma goleada poucos dias antes, o empate teve peso simbólico. Curaçao não apenas evitou nova derrota, como escreveu uma página inédita de sua trajetória no futebol mundial.
Um ponto com peso de vitória
O empate sem gols não mudou apenas a tabela do Grupo E. Ele confirmou a Alemanha como vencedora da chave, complicou a situação do Equador e deu a Curaçao um motivo de orgulho nacional.
Mais do que um placar, o 0 a 0 representou resistência. Com Eloy Room em uma noite memorável, Curaçao transformou uma partida de sobrevivência em marco histórico. Para a pequena ilha caribenha, o primeiro ponto em Copas do Mundo teve sabor de vitória.
fonte? Brasil 247