
Especialistas em segurança pública avaliam a decisão do governo dos Estados Unidos de qualificar as facções Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho como grupos terroristas é uma desculpa para interferência indevida em assuntos nacionais. O verdadeiro objetivo dos norte-americanos seria intervir na eleição presidencial deste ano e na negociação em trono das terras raras.
Assessor especial da Presidência da República, Celso Amorim criticou a decisão: “Segurança pública é um tema fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável”.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública emitiu nota lamentando que um tema com “implicações profundas” para a soberania e autonomia do Brasil, além de possíveis efeitos sobre a economia, o sistema financeiro e mecanismos de cooperação regional e internacional, tenha sido “capturado pela disputa eleitoral”.
Segundo o texto, a medida vem sendo incentivada como solução para um problema “bem mais complexo”, sem considerar os riscos de iniciativas unilaterais de outros países para uma economia do porte da brasileira.
Ex-ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo também se opôs à medida, em entrevista ao site da revista Carta Capital. “É uma ofensa à soberania nacional e seguramente será utilizada pelo governo Trump — que se considera xerife do mundo — para intervir no território nacional com medidas que só podem ser tomadas por quem é soberano”, critica. “No Brasil, o soberano é o povo brasileiro, não Donald Trump.”
O geógrafo Elias Jabour aponta implicações graves. “Os EUA conseguiram o pretexto que necessitavam para ter acesso a recursos naturais e ativos estratégicos aqui no Brasil. Eu explico: quando eles alcunham qualquer organização fora de seu país como ‘organização terrorista’, isso passa de uma condição de extraterritorialidade para invadir aquele país, por exemplo, sob pretexto de combate às drogas”, afirma.
Maior autoridade no combate ao PCC, o promotor Lincoln Gakiya explicou que a medida não ajuda no combate ao crime e cria riscos adicionais. “Eu não tenho dúvida, vai causar problemas de toda ordem no Brasil e não vejo nenhum benefício prático que essa classificação possa trazer. Acho que há o risco muito grande dos Estados Unidos quererem fazer algum tipo de ação militar secreta aqui dentro do Brasil, como fez no México e como fez também na Venezuela”, disse ele à jornalista Natuza Nery, no podcast “O Assunto”.
Luis Flávio Sapori, especialista em segurança pública da PUC-Minas, vê comprometimento da autodeterminação do Brasil. “O principal risco dessa medida é que isso pode afetar a soberania nacional. À medida que os Estados Unidos qualificam essas facções como terroristas, eles podem utilizar as suas Forças Armadas para fazer intervenções diretas nos países que abrigam essas facções”, disse, em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo.
fonte: ICL Notícias