6 de maio de 2026
p.18 - Brasil e Estados Unidos em direções opostas - o novo mapa da democracia global

Foto: Ricardo Stuckert

 

O mais recente relatório do Instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, revela uma inflexão histórica no cenário político internacional: enquanto o Brasil avança na recuperação democrática, os Estados Unidos enfrentam um processo acelerado de erosão institucional. Pela primeira vez em mais de meio século, a maior potência mundial deixa de ser classificada como uma democracia liberal.

Durante décadas, os Estados Unidos foram considerados referência global em democracia, exportando valores institucionais e políticos. No entanto, o relatório de 2026 aponta uma deterioração “sem precedentes” no sistema político norte-americano. O país caiu da 20ª para a 51ª posição no ranking global, perdendo seu status de democracia liberal e sendo agora classificado apenas como uma democracia eleitoral.

Esse rebaixamento está diretamente associado ao segundo mandato do presidente Donald Trump. Segundo o estudo, houve concentração de poder no Executivo, enfraquecimento dos mecanismos de freios e contrapesos, politização da máquina pública e pressões sobre o Judiciário, além de ataques recorrentes à imprensa, à academia e às liberdades civis.

O líder do estudo, Staffan Lindberg, alerta que a velocidade da deterioração democrática nos EUA não encontra paralelo em democracias modernas. As eleições de meio de mandato de 2026 são apontadas como um teste decisivo: caso haja novos retrocessos, o país poderá aprofundar ainda mais sua crise institucional.

Na contramão, o Brasil aparece como destaque positivo no cenário internacional. Ocupando a 28ª posição no ranking, o país lidera o grupo de nações que conseguiram reverter processos recentes de autocratização.

De acordo com o relatório, o período de desgaste democrático brasileiro teve início com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e se intensificou durante o governo de Jair Bolsonaro, marcado por tensões institucionais, questionamentos ao sistema eleitoral e ataques a outros poderes.

A reversão desse quadro ocorreu com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, à frente de uma ampla coalizão política. Segundo os pesquisadores, o Brasil conseguiu interromper o processo de autocratização antes de um colapso democrático mais profundo, restaurando níveis institucionais anteriores.

Ainda assim, o relatório ressalta que o país permanece altamente polarizado, e as eleições de 2026 serão cruciais para consolidar — ou fragilizar novamente — esse processo de recuperação.

O diagnóstico global traçado pelo V-Dem é preocupante. A democracia, em média, retrocedeu aos níveis observados em 1978, apagando boa parte dos avanços conquistados desde a chamada “terceira onda de democratização”, iniciada após a Revolução dos Cravos.

Atualmente:

#  74% da população mundial vive sob regimes autocráticos;

# Apenas 7% está em democracias liberais;

# O mundo contabiliza mais autocracias (92) do que democracias (87).

Além disso, grandes potências como Itália, Reino Unido e os próprios Estados Unidos aparecem em trajetória de autocratização — um fenômeno particularmente grave, dado o peso econômico e político desses países na ordem global.

O contraste entre Brasil e Estados Unidos simboliza uma mudança mais ampla no equilíbrio democrático internacional. Se antes o eixo das democracias liberais parecia estável e concentrado no Norte global, hoje há sinais de fragilidade nessas regiões, enquanto países do Sul global, como o Brasil, apresentam movimentos de recuperação institucional.

Esse cenário sugere que a democracia deixou de ser um estado consolidado para se tornar um processo dinâmico, sujeito a avanços e retrocessos. Mais do que nunca, sua sobrevivência depende da capacidade das instituições de resistir a pressões políticas, garantir direitos e manter o equilíbrio entre os poderes.

Em um mundo onde a autocratização avança, o futuro democrático — tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos — permanece em aberto.