
Foto: Reprodução
Na terra do Padre Cícero, cidade onde a fé, o comércio e as histórias humanas se encontram nas calçadas e praças, há personagens que fazem parte da paisagem tanto quanto as igrejas e as feiras.
Entre esses rostos conhecidos está uma senhora negra, de sorriso fácil e olhar atento, que carrega consigo uma bandeja de sabores.
Seu trabalho é simples na aparência, mas cheio de significados. Ela transforma doce em sustento, em dignidade e em profissão.
Dudu é dessas mulheres que fazem da própria história um exemplo de resistência e criatividade.
Empreendedora por necessidade e por vocação, aprendeu que cada doce vendido é também um gesto de autonomia.
Em tempos em que muitas mulheres ainda lutam por espaço e reconhecimento, ela prova que o empreendedorismo também nasce nas calçadas, nas feiras e nas mãos habilidosas de quem nunca desistiu.
Em uma cidade marcada pela devoção ao Padre Cícero, talvez não seja exagero dizer que Dudu também cumpre sua pequena missão diária: adoçar vidas.
Dudu chega de mansinho, equilibrando sua bandeja como quem carrega um pequeno tesouro. Entre mesas de bar, festas e encontros de fim de noite, ela oferece trufas e cocadas com um sorriso que parece já fazer parte da paisagem noturna.
Alguns compram pelo doce. Outros compram pela simpatia. E há aqueles que compram só para puxar conversa, porque Dudu também vende um pouco de companhia para a madrugada.
Enquanto muitos contam histórias, ela constrói a própria, passo a passo, mesa a mesa.
A noite que para uns é lazer, para ela é trabalho.
Dudu é dessas mulheres que aprenderam cedo que empreender nem sempre começa com um plano de negócios. Às vezes começa com uma panela no fogo, um punhado de coco ralado e a coragem de sair pela cidade oferecendo aquilo que as próprias mãos fizeram.
E assim ela segue, caminhando pelas ruas iluminadas e pelas calçadas cheias de gente, levando seus doces como quem espalha pequenas provas de resistência.
Cada cocada vendida é mais do que um doce: é uma resposta silenciosa às dificuldades da vida.
No Dia Internacional da Mulher, talvez nem seja preciso fazer discursos longos para falar da força feminina.

Basta olhar para a bandeja de Dudu das Cocadas passando entre as mesas. Ali vai uma mulher que transformou trabalho em dignidade e a própria história em exemplo.
Porque, no fundo, a cidade inteira sabe: há noites em que o sabor mais marcante de Juazeiro não vem da festa nem da música. Vem das cocadas e da coragem doce de uma mulher que decidiu não parar.
Por Iraides Sales
(Jornalista)