
COLUNA NORDESTINADOS A LER
POR LUCIANA BESSA
O fim de Eddy e o começo de Édouard Louis
A brutalidade retratada pelo escritor francês Édouard Louis em seus livros me impressiona, me causa uma sensação de repugnância, ao mesmo tempo que me seduz e me fascina. A literatura é mesmo uma experiência complexa, humanizadora e catártica.
A obra é dedicada ao escritor, filósofo e amigo Didier Eribon, que Edouard conheceu em Amiens, em uma palestra na universidade acerca do livro, Retorno a Reims (2009).
Na obra Mudar: método (2024), Louis nos conta que, justamente no momento que ele estava mais integrado à sua nova vida, conhece Didier e deseja “recomeçar tudo, e fugir mais uma vez”. Muitas vezes, as pessoas não imaginam o impacto que causam em nossas trajetórias.
Em seguida, há uma epígrafe da escritora francesa Marguerite Duras: “Pour la première foi mon nom prononcé ne nome pas”, da obra O arrebatamento de Lol V. Stein, que significa “Pela primeira vez, meu nome pronunciado não nomeia” ou “não me identifica/identifica quem sou”, não sei dizer com precisão.
Sei que antes de publicar O fim de Eddy (2014), o autor resolveu (2013) pôr um fim em Eddy Bellegueulle, o nome dado pelos seus genitores, o filho desejado e esperado, mas rechaçado por não ser como seu pai, ou como seu primo Sylvain, ou como os garotos da escola ou do vilarejo: rude, grosseiro, estúpido, bebarrão, pegando as “mina”, assistindo a filmes pornográficos.
Contudo, o título também pode remeter ao apagamento que a sociedade queria dar a Eddy – um garoto gay e pobre de um dos muitos vilarejos da França despossuído do amor familiar, de uma boa educação, como também, ao fim que Eddy procurou, durante toda a narrativa, a dar a si próprio. A sensação de não pertencimento, exclusão e inadequação acompanhou Édouard Louis uma boa parte de sua existência.
A violência que o narrador sofre não é apenas da família, dos garotos da escola, mas de si mesmo, pois em busca de sobreviver a um ambiente hostil em que apanha fora de casa, em que é obrigado a engolir o cuspe dos agressores, Eddy busca apagar/matar seus “gestos de bicha-louca”, moderar sua voz que “espontaneamente adquiriu entonação feminina”, a se relacionar com mulheres.
Todos os dias quando se arrumava para ir à escola (não escova os dentes, não tomava banho, pois era apenas um tanque de água para as sete pessoas da família), Eddy se comprometia a vigiar seus gestos, a se dedicar exclusivamente a praticar atividades masculinas, a jogar futebol com mais frequência, a assistir programas de televisão diversificados etc. Antes de sair de casa, uma última conferência diante do espelho seguida da frase que se tornou seu mantra por anos: “Hoje vou ser um durão”.
O fim de Eddy (2014) é um romance autobiográfico (?), ensaístico (?), auto ficcional (?), que tem como pano de fundo a infância – “De minha infância não guardo nenhuma lembrança feliz” – e o início da adolescência do autor em meio à pobreza e o conservadorismo da sociedade rural francesa, vilarejo de Picardia, na década de 90.
A obra encontra-se dividida em dois momentos: Livro 1: Picardia (fim dos anos 1990 – começo dos anos 2000) e Livro 2: O fracasso e a fuga. Em seguida, há um epílogo.
Na primeira parte, formada por 15 capítulos curtos e com uma linguagem fluída, o narrador coloca o leitor em contato com a violência por ele sofrida pela família – “Por que Eddy se comporta como uma mocinha” -, pela escola, “É você o veado”, “Olha lá, é o Bellegueulle, aquela bicha e por si próprio – “Eu tinha esperança de mudar”. À medida que é oprimido, Eddy também oprime. Em um determinado momento da narrativa ele manda uma “bicha calar a boca” no pátio da escola para “deslocar a vergonha” para o outro.
Annie Ernaux, escritora francesa, declarou que em O fim de Eddy (2014) há a “linguagem dos dominados”. Nesta primeira parte, há um garoto que não se rebela contra as múltiplas violências que sofre. Muito pelo contrário: aceita cada uma delas. “Eu repetia para mim mesmo que eles tinham razão”.
Na segunda, formada por nove capítulos, Eddy busca avidamente “Torna-se” um homem, depois do episódio do “Depósito”, em que ele foi flagrado pela própria mãe enquanto o primo, Stèphane, o possuía. Por isso, suas tentativas inúteis de se relacionar com garotas: primeiro Laura, depois Sabrina.
Neste período, os dois garotos que batiam em Eddy saem da escola, um outro (Tainha) mais afeminado chega e os holofotes voltam para ele. “Eu estava então no nono ano e era hora de escolher que caminho eu seguiria”. Recusando-se a fazer o ensino médio em Abbeville, liceu do distrito onde morava, Eddy queria “Fazer tudo do zero, recomeçar, renascer”. A diretora da escola na qual estudava indicou que ele fosse para o “liceu Madeleine-Michelis, em Amiens”, pois lá tinha “uma divisão de teatro que era o preparatório para o ensino superior” (Eddy fazia um curso de artes cênicas no vilarejo e tinha um “certo talento para a comédia”). Feito o processo de admissão e passado, Eddy se dedica a elaborar sua “vida longe dali”.
Por fim, um epílogo, em que nosso protagonista chega em sua nova jornada em que escuta dos novos amigos “Eddy Bellegueulle, porra Eddy Bellegueulle é um nome difícil de carregar”…
Ler Édouard Louis é entrar em contato com uma França que não está nos cartões postais e nos filmes que estamos acostumados a assistir. É se deparar com uma escrita original, que subverte o que a maioria dos leitores busca (glamour, felicidade, hot). É se sentir desconfortável com a miséria humana. Por mais que não sejamos cidadãos franceses, somos conscientes que existem milhares de Eddy no mundo, em especial, no Brasil.