6 de março de 2026
p.4 - Editorial

Foto: Leia Sempre Brasil (Desenvolvido com IA)

EDITORIAL

É Hora de o Brasil romper o silêncio: a violência contra as mulheres começa dentro de casa

Durante décadas, o Brasil foi educado a repetir a expressão “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Esse ditado, aparentemente inofensivo, ajudou a construir um dos maiores pactos de silêncio da nossa história: a naturalização da violência contra as mulheres dentro das famílias.

O país avançou com a criação da Lei Maria da Penha e da Lei do Feminicídio. No entanto, os dados divulgados anualmente pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a casa — o espaço que deveria representar proteção — continua sendo o principal cenário das agressões. A maioria dos feminicídios ocorre dentro do ambiente doméstico e é praticada por companheiros, ex-companheiros ou familiares.

Isso exige uma reflexão incômoda: que modelo de família estamos defendendo?

A violência que se esconde atrás do discurso da “família tradicional”

No debate público brasileiro, tornou-se comum a invocação da chamada “família tradicional” como sinônimo de moralidade, ordem e proteção. Mas, historicamente, essa estrutura foi organizada sob bases patriarcais, onde o homem detém poder econômico e simbólico, e a mulher é socializada para obedecer, suportar e manter a unidade familiar a qualquer custo.

Quando a preservação da família vale mais do que a integridade da mulher, algo está profundamente errado.

A romantização de um modelo familiar rígido e hierárquico frequentemente invisibiliza relações abusivas. Quantas mulheres permaneceram em casamentos violentos por pressão religiosa, dependência financeira ou medo do julgamento social? Quantas ouviram que deveriam “aguentar pelo bem dos filhos”? Quantas foram desacreditadas por denunciar pais, padrastos ou companheiros?

Defender a família não pode significar defender o silêncio diante da violência.

A agressão dentro de casa não é assunto privado. É questão de direitos humanos, saúde pública e democracia. Cada mulher violentada representa uma falha coletiva: do Estado, das instituições e da sociedade que ainda relativiza o machismo.

No Ceará e em todo o Brasil, delegacias especializadas, casas de acolhimento e políticas de proteção são conquistas importantes. Mas sem transformação cultural, as leis agem apenas depois que a violência já aconteceu.

É preciso educar para a igualdade desde cedo. Ensinar que ciúme não é prova de amor, que controle não é cuidado, que autoridade masculina não é sinônimo de liderança. É necessário fortalecer a autonomia econômica das mulheres e garantir redes de apoio reais.

O Brasil não precisa defender uma “família tradicional” abstrata. Precisa defender famílias baseadas em respeito, igualdade e afeto — independentemente de sua configuração. Famílias onde meninas cresçam sem medo e mulheres não sejam silenciadas.

A verdadeira defesa da família começa quando se rompe com o machismo que a estrutura.

Neste 8 de março, o chamado é direto: é hora de o Brasil acabar com a violência contra as mulheres dentro das próprias casas. Isso passa por denunciar, apoiar vítimas, cobrar políticas públicas e questionar discursos que colocam a imagem da família acima da vida das mulheres.

Nenhuma tradição vale mais do que a dignidade. Nenhuma estrutura social pode se sustentar sobre o medo.

Romper o ciclo da violência doméstica é mais do que uma pauta feminina — é um passo essencial para que o país se torne, de fato, uma sociedade justa e civilizada.

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