
Ilustração: Desenvolvido com Apoio de IA
Por Professor Oberdan Leite
Há vinte e poucos dias de dezembro no período de pré-natal eu me encontrei, por acaso, com um amigo professor num pequeno restaurante de Barbalha. Ele parecia já estar de saída, mas como costumamos devotar aos amigos tempo, levamos e trouxemos uma meia hora de boas conversas. Desejamos um ao outro um feliz Natal e trocamos algumas palavras sobre educação. E eu, como sempre, aprendi mais um pouco. Dizia ele:
– Observe, meu amigo. Há algumas coisas na vida que quando chegam à escola deixam de ser bonitas. O senso de humanização cotidiano, por exemplo, muitas vezes se transforma só em resultados puros e sacudidos. A forma com que se está trabalhando na minha escola faz do aluno e do professor simplesmente números, notas, médias.
Refletindo sobre suas palavras lembrei-me de um acontecido no pátio da escola há poucos dias atrás. havia um pé de flores brancas onde desabrochavam, lindamente, três. Tais flores enfeitavam não só a si próprias como também eram responsáveis pelo embelezamento do local cheio de pés de capim. Passou por ali uma aluna e arrancou duas das flores. Lamentei o ocorrido e perguntei a ela por que havia feito aquilo. Ao que ela me respondeu:
– Eu arranquei as flores porque elas são bonitas e eu quero levá-las para casa. Mas aqui no canteiro ainda sobrou mais uma, olhe lá!
Nessas palavras a aluna mostrou que as flores que ornamentavam com beleza o ambiente em que todos passavam, só teriam grandes valores se estivessem no vaso de flores da casa dela. A beleza das flores foi arrancada do chão para embelezar o ambiente de sua casa, individual, que certamente não seria o mais belo de todos. A beleza está nos olhos de quem vê, mas se quem vê só enxerga a si próprio, a beleza perde seu valor. Ela, a aluna, com certeza não avaliou que estaria separando a beleza natural das três flores e que em pouco tempo as duas flores que ela levou murchariam e morreriam mais rápido. Não avaliou que os pólens trancados no seu quarto não produziriam novas flores e que a tristeza da separação entre elas diminuiria a amplitude da beleza das três juntas. As flores ao estarem separadas não serviriam aos olhos de todos, mas somente aos olhos dela e da família. Ser só uma flor, individual, não embelezava mais o pátio da escola como antes, posto que o belo não estava apenas numa das flores, mas sim nas três flores unidas.
Enxergamos a beleza na atitude do outro quando encontramos a nossa própria beleza interior. Não podemos nunca deixar de querer ser belos. E devemos apenas nos vigiar para não querermos ser mais belos do que o outro. Aí o belo se torna feio.
Voltando ao assunto primeiro sobre meu amigo, creio também que quando a escola se predispõe a se construir apenas em valores numéricos, transforma a educação numa espécie de máquina de produção de resultados. Isso rompe com a beleza humana em que a escola se predispõe a ser, envolvendo-a num processo de escravização moderna. Alunos não são somente números. Professores, também não. Não há nada de sábio em colocarmos o valor numérico à frente do valor humano com a finalidade de que o Estado se sinta grande.
Isso é semelhante à atitude da aluna que separa as flores para que o belo surja no vaso da casa dela. A essência escolar tem formas diversas e diversificadas e, muitas vezes, imprevisíveis como as flores têm. Se nós limitamos sua essência a um valor isolado como os dos interesses exclusivamente numéricos, corremos o risco de perder a essência das culturas, das religiões, das justiças, das políticas, das sociedades, dos viveres e das ricas histórias que habitam o âmbito escolar. Negar isso é colocar o Estado e a escola como duas entidades individuais em movimentos de defesa e de ataque num terreno onde já se encontram sepultadas vidas.
Outro dia, lembrando-me agora, numa palestra escolar o palestrante discutia sobre os malefícios e benefícios em sala de aula. Ele perguntou:
– Será que o aluno, ao entrar no segundo grau, tem aptidão real para saber escolher o que quer? Ele escolherá uma boa aula de Língua Portuguesa ou escolherá o seu WhatsApp?
Enquanto o palestrante apresentava questionamentos sobre o uso indevido do celular em sala, eu percebia um professor de Geografia crítica, ao meu lado, limpando tranquilamente as suas conversas eletrônicas do seu WhatsApp. Nesse momento de descontração, o professor, espontaneamente, já dava sua resposta à pergunta do palestrante. E é assim que a flor escolar vai murchando, murchando e não mais reproduz a beleza da educação.
Moral: Educação, sem ação, caduca.