
Há cinco anos idealizei o projeto Nordestinados a Ler: Blog Literário com o propósito de ser mais um braço neste imenso oceano para divulgar a literatura, especialmente, aquela produzida por mulheres que ao longo da História foram impossibilitadas de frequentar os bancos escolares, de ter acesso aos livros, salvo raríssimas exceções, porque suas famílias temiam que sofressem algum “mal”.
No fim das contas foram as próprias famílias que provocaram um grande mal às suas filhas, guardando claro às devidas ressalvas, já que sem capital social e capital simbólico, os nomes delas não constam nas principais áreas do conhecimento. Por isso, o foco do Nordestinados a Ler é o gênero feminino.
Nunca entendi a literatura como uma arte criada pelo masculino, ou como um objeto artístico concebido por um sopro criador, que tivesse que ficar em uma gaiola de ouro, embora saiba que os livros, ao longo dos séculos, tenham ficado circunscrito a uma elite.
Como a literatura não se reduz ao livro, ela existe, está nos clubes de leitura, nas salas de aula, nas feiras e nas agremiações literárias, nos congressos e simpósios, a circulação é fundamental para que a arte literária conecte autores e leitores.
A literatura renasce e se reinventa cada vez que uma Coletânea de Textos é publicada, ou cada vez que uma editora publica uma obra, ou cada vez que um livro é lido, ou cada vez que um autor/uma autora é questionado (a), ou cada vez que esse “produto artificial feito de árvore com partes flexíveis” é censurado e/ou queimado em praça pública.
Isso só acontece porque a classe dominante com medo de perder seus privilégios, quer contar a História por uma única perspectiva. Se a nigeriana Chimamanda Adichie foi salva pelos escritores africanos “de ter uma história única sobre o que são os livros”, nós também podemos sê-lo.
Essa semana foi publicada a 5ª Coletânea de Textos do Nordestinados a Ler. O sentimento é de contribuir com o que Antonio Cândido falava em 1985: “A literatura é, ou pelo menos deveria ser, um direito de todos”, uma vez que ela é essencial para formação de consciências mais éticas e mais críticas.
Agradeço a todos/todas que acreditam e incentivam esta caminhada, especialmente, o trabalho primoroso dos bibliotecários e amigos Bárbara Mota e Hemerson Soares responsáveis pelo projeto editorial e pela diagramação.
O Nordestinados a Ler não só recebe textos (conto, poesia, crônica, artigo de opinião) de escritores (Emerson Cardoso, Janir Ribeiro), mas de jovens de 12, 13, 14 anos de idade. A escrita nesta fase tão desafiadora da vida chamada de adolescência contribui para estimular a imaginação, desenvolver a empatia, ajudar a conhecer a si próprio, dominar o código linguístico. Em tempos de excessos de redes sociais, não só auxilia na saúde mental, como também mostra aos adolescentes que há um mundo interessante para além das tecnologias.
Não bastasse, por meio das Discussões Literárias, encontros mensais que ocorrem virtualmente no último sábado de cada mês, de abril a novembro, o Nordestinados a Ler apresenta escritoras dos nove estados do Nordeste. Em cinco anos de projeto, trouxemos à tona trinta e cinco escritoras que os participantes simplesmente desconheciam.
Lembrei-me de uma entrevista com a professora Regina Dalcastagnè à revista Cult em 2018: “Quem é e sobre o que escreve o autor brasileiro?”. Para a pesquisadora, e eu concordo, o campo literário vive em completo desequilíbrio dado ao quantitativo de “publicações homogêneas”, “autorrefecente e entediante”, escritas por homens brancos, heterossexuais do eixo Sul-Sudeste.
Eu, por exemplo, que fiz o Curso de Letras somente conheci Állex Leilla (Babia), Auritha Tabajara (Ceará), Margarete Solange de Moraes (Rio Grande do Norte), Jorgeana Braga (Maranhão), Rita Santana (Bahia) graças ao Nordestinados a Ler.
Antes estava lendo Machado de Assis, Jorge Amado, Mário de Andrade, José Lins do Rego, Drummond (minha paixão), que são escritores maravilhosos, mas de tanto estudá-los na academia, não conseguia enxergar a literatura produzida por mulheres da minha própria região.
Por fim, com o sentimento de gratidão e de estar contribuindo para a propagar a literatura de autoria feminina do Nordeste, peço que recebam a 5ª Coletânea de textos do Nordestinados a Ler, divulgue-na e continuem enviado seus textos para o e-mail: nordestinadosaler@gmail.com.
Vida longa ao Blog Literário: Nordestinados a Ler!