
Resolvi não morrer
Por Oberdan Leite, professor
Crudelíssima é a dor que não dói, mas nos mata do mesmo jeito. E assim é o mal de Alzheimer que procura tornar morta não só a vítima, mas todos aqueles que a rodeiam. O cérebro de minha mãe tornou-se ventre deste parceiro indesejável que chegou sem lhe pedir licença e se gerou no seu corpo inerme.
Os estímulos que norteavam gestos, quereres e falares gerados por conhecimentos e sabedorias adquiridos durante anos de vida foram sumindo aos poucos e se traduziram na mecanicidade de certos movimentos importantes.
A vontade remadora dos afazeres cotidianos surge, navega, flutua, oscila, balança, tenta, mas se afoga nos elementos encefálicos que não permitem sua continuidade. Chorar diminuiria a dor por não conseguir fazê-lo, mas quem tem Alzheimer, como minha mãe, parece que pouco chora. E não chorava não pela inexistência da dor, mas pelo simples fato cruento de não se lembrar mais como chorar. Parecia isso. Quando às vezes minha mãe me olhava, sentia que do seu intimo mais profundo brotava uma vontade gritante de pronunciar meu nome, mas o seu desejo histérico percorre a vastidão dos seus neurônios patológicos num crânio de 84 anos de idade e chega à boca traduzida no silêncio interceptivo da fala estática.
Em que encaixes neuronais dela se escondeu meu nome? Toda a sobrevivência do belo macrocosmo vocabular que ela antes dispunha se perdeu no esquecimento. Logo quando ela estendia sua mão e acariciava meu rosto e seus olhos me percorriam, eu percebia nela o querer saber onde a palavra se escondeu. E por não entender a chegada incoerente daquele silêncio brutal, seu olhar demonstrava buscar um não-sei-o-quê de não-sei-de-onde.
Lembro-me de minha adolescência quando minha mãe me perguntara num momento de jantar:
– Quer comer pimenta?
– Não, respondi de prontidão.
– Por que não? – insistiu.
– Porque arde.
– Arde se você comer só a pimenta. Mas coma com muita farinha, feijão e caldo que nem vai perceber o ardor da pimenta.
E assim o fiz. Comi sem nem enrugar a testa. Isso me fez aprender que comer demais o lado apimentado da vida, limpo e seco, só me faria saber do seu ardor forte que me vomitaria.
No momento simbiótico em que eu e minha mãe desenterrávamos o poder comunicativo que também habita o silêncio, quem se pronunciava era a alma que não falava, entretanto se comunicava. Era ela, a alma abstrata e inquietante que permitia qualquer voz não necessitar gritar para ser escutada. Senti no silêncio das suas palavras o ressurgimento de um novo sentido de vida. Eu precisei deixar de viver a morte e viver outros valores que estavam pertos de mim: o toque sensitivo de seus dedos, seu sorriso equilibrado, a bênção que ela ainda me sabia dar, o café da manhã que com ela eu dividia, a confiança que me tinha quando às vezes lhe dava seu banho, a repetição da fala dos meus filhos quando brincavam com ela e o batido das palmas que nos presenteava perante a graça que lhe fazíamos.
Minguar-se na dor e não enxergar os arredores que a cercam é convidar a morte a ser uma companheira inseparável. E eu não nasci para morrer. Pequenos momentos nos traduzem grandes se aprendermos a vivê-los. Isso porque a grandiosidade universal da vida reside na singularidade de momentos breves.
E foi assim que descobri e vivi o significado da ressureição que Jesus vivera ao terceiro dia após a sua morte, conforme narram as escrituras cristãs.
Moral: A vida vivida sozinha, não justifica a alma. É preciso compartilhar com quem amamos o que se vive.
SOBRE O AUTOR
José Oberdan Leite, barbalhense, é professor formado pela URCA – Universidade Regional do Cariri com formação também em Pedagogia (UCAM) e com Pós-graduação em Língua Inglesa (URCA), Língua Portuguesa (URCA), Psicopedagogia Escolar (FJN), Gestão Escolar Administração, Supervisão e Orientação (UCAM) e Liderança e Coaching (FMJ). Atualmente cursa mestrado acadêmico em Ciências da Educação pelo Instituto Educainter. Atua como servidor público do estado do Ceará na EEMTI Alaide Silva Santos, Juazeiro do Norte-Ceará.