
Por Íris Tavares – Historiadora, Escritora e Educadora Social.
Cresci escutando a minha vó dizer que “O veneno da cobra é o seu próprio mal“. Aprendi que essa frase destaca a falta de lealdade e o ciclo vicioso que a maledicência cria, sugere que a pessoa detentora dessa “necessidade” não é confiável e sofrerá as consequências de suas próprias ações. Sabiamente a minha vó complementava que a língua é uma faca afiada e pode ferir os outros e a si próprio.
No mundo da política a língua ferina sempre esteve bem cotada, e, com ela muitos são atingidos, vizinhos, membros da família, servidores públicos, a comunidade, e o país, entre outros. Um recente episódio protagonizado pelo ex-prefeito da “Princesinha do Norte”, por meio de entrevista amplamente divulgada pelos meios de comunicação, veio à tona o caráter conservador e preconceituoso desse ilustre personagem.
Referindo-se ao ex-governador do Ceará e atual Ministro da Educação do Governo Lula, o ex-prefeito com certo deboche o chama de “João Ninguém”. Um termo herdado do âmago do capitalismo saqueador e aventureiro do colonizador português, que trazia consigo o resquício cultural “tradicional” origem do medievo, o bugre. Uma anamnese sendo transmitida ao longo de pelo menos 11 séculos. Mais do que deboche é uma forma de humilhar, chasquear e reproduzir o pensamento dos colonizadores, piratas, imperialistas que continuam apostando no controle, no poder político e na posse de territórios que não lhes pertencem, mesmo que isso custe a vida de milhares de pessoas. “Manda quem pode e obedece quem tem juízo”.
O ex-prefeito é uma pessoa de boa formação. Com vários títulos e por último esteve como sucessor do grupo político que comandou o município de Sobral nos últimos 30 anos. Segundo registro da historiografia a influência política da família na cidade se deu no início da República, com o cargo de primeiro intendente (prefeito) de Sobral em 1890.
O episódio me fez refletir, sobretudo o exemplo que uma liderança representa para seus aliados e para a sociedade como um todo. O agravamento da crise política se dá pela quebra de princípios, pela falta de respeito, pela ausência da ética que culminam na força destrutiva das relações humanas, seja no campo pessoal, político e/ou coletivo.
Penso que nós mulheres que sonhamos com uma sociedade nova e melhor, baseada em princípios como igualdade, justiça e solidariedade não podemos seguir o modelo de poder, onde o canibalismo político predomina.