
O escândalo em torno da derrocada do Banco Master ganhou contornos de conspiração contra instituições do Estado brasileiro. A Polícia Federal (PF) instaurou inquérito para desarticular um esquema de contratação de influenciadores digitais destinados a deslegitimar o Banco Central (BC). A ofensiva digital visava reverter, no grito das redes, a liquidação extrajudicial da instituição comandada por Daniel Vorcaro.
O colapso e a fraude da “Era Vorcaro”
A decisão do BC de liquidar o Banco Master não foi súbita. O dossiê técnico aponta uma grave deterioração patrimonial e um rombo estimado em R$ 12 bilhões. A causa central da liquidação foi a detecção de operações fraudulentas sistemáticas, com a venda de carteiras de crédito inexistentes ou supervalorizadas, configurando um “buraco” que ameaçava a estabilidade do sistema financeiro nacional.
A instituição teve as atividades encerradas oficialmente pelo Banco Central no mesmo dia em que a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero. A investigação apura fraudes financeiras que podem ter movimentado R$ 17 bilhões por meio da emissão e venda de títulos de créditos falsos. O sócio principal do Banco Master, Daniel Vorcaro, chegou a ser preso no Aeroporto de Guarulhos, um dia após o anúncio da suposta venda do banco para a Fictor Holding Financeira. Além dele, foram detidos os sócios Augusto Ferreira Lima, Luiz Antonio Bull, Alberto Feliz de Oliveira e Angelo Antonio Ribeiro da Silva. Todos agora respondem em liberdade com tornozeleira eletrônica e estão proibidos de atuar no setor financeiro.
A milícia digital a serviço do capital
A denúncia de milícia digital que desencadeou a ação da PF partiu do próprio campo da direita digital. A jornalista e influenciadora Juliana Moreira Leite (sem parentesco com o jornalista Paulo Moreira Leite) e o vereador Rony Gabriel (PL-RS) revelaram terem sido procurados por agências como a Portal Group BR.
A proposta envolvia dinheiro vivo para propagar a narrativa de que o BC agiu por “perseguição política”. O alvo principal era o diretor do BC, Renato Dias Gomes, acusado em postagens coordenadas de “destruir um banco em 40 minutos”. Estima-se que cerca de 50 perfis, com alcance de dezenas de milhões de seguidores, tenham aceitado o “jabá” para atacar as instituições de controle.
A conexão TCU
Enquanto a PF investiga o crime, outra frente de embate se aprofunda no Tribunal de Contas da União (TCU). O relator do caso é o ministro Jhonatan de Jesus, médico e ex-deputado pelo Republicanos-RR, filho do senador Mecias de Jesus. A indicação dele ao TCU, em 2023, teria sido uma demonstração de força do “Centrão”, capitaneada pelo então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).
O impasse ganhou novos capítulos nesta sexta-feira (9). Jhonatan de Jesus recuou da decisão monocrática de inspecionar presencialmente o Banco Central após um recurso (embargos de declaração) do órgão regulador. O BC questionou o fato de um único juiz determinar tal procedimento, em vez de uma deliberação colegiada. Diante da “dimensão pública assumida pelo caso”, o ministro suspendeu a inspeção individual e submeteu a controvérsia ao plenário da Corte, instância que ele considera natural para “estabilizar institucionalmente a matéria”.
O BC sustenta que a medida foi a única forma de proteger o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e evitar um efeito dominó que prejudicaria milhões de brasileiros.
PF e a rota do dinheiro
A Diretoria de Inteligência da PF agora foca no fluxo financeiro. O objetivo é descobrir se o dinheiro usado para pagar a rede de influenciadores saiu das contas de Daniel Vorcaro ou de empresas ligadas ao Master, o que configuraria obstrução de justiça e uso de recursos de origem ilícita para atacar órgãos de Estado.
A defesa de Vorcaro e do Banco Master nega qualquer envolvimento com a contratação de influenciadores, contudo o avanço das investigações promete revelar os nomes por trás dos pagamentos que tentaram colocar o interesse privado acima da soberania das instituições públicas.
As agências citadas, como a Portal Group BR, emitiram nota em que negam ataques coordenados e afirmam que sua atuação é estritamente de “marketing institucional”. Alegam que o conteúdo distribuído baseava-se em fatos públicos e que a contratação de influenciadores é uma prática legítima de mercado, negando o uso de verbas ilícitas.
fonte:Portal Vermelho