
Todo começo de ano, o mercado financeiro tenta pintar um cenário catastrofista sobre a economia brasileira. 2025 até que poderia ter correspondido às expectativas negativas dos economistas liberais com o surgimento do ‘tarifaço’ do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas com altivez e fundamentado nos preceitos da soberania, o presidente Lula e a diplomacia nacional conseguiram contornar com brilhantismo as barreiras impostas.
A maior ‘pedra no sapato’ da economia, portanto, pode ser considerada a taxa básica de juros, a Selic, que encerra o ano em astronômicos 15% ao ano. Os professores José Luis Oreiro, do Departamento de Economia da UnB (Universidade de Brasília), e Marcelo Manzano, do Instituto de Economia (IE) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), já indicaram os juros como o principal vilão do ano e apontaram as perspectivas para 2026.
Mas para entender melhor as dinâmicas de 2025, o Portal Vermelho questionou os professores sobre o crescimento econômico do ano, que terá os números oficiais divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ao final do primeiro trimestre de 2026.
O PIB e os juros
Se o próximo ano começa em ritmo de espera sobre os juros, mas com a possibilidade de algum avanço no PIB (Produto Interno Bruto), é possível dizer que 2025 correspondeu ao que os economistas heterodoxos esperavam, ao contrário do cenário catastrofista que a mídia liberal vocalizou a partir da “Faria Lima”.
Assim, a avaliação de que 2025 foi acima das expectativas quanto à economia tem como partida as projeções pessimistas do final de 2024 e do início de ano feitas por analistas de mercado. Estes continuam mais preocupados em perseguir uma pauta ideológica neoliberal do que, propriamente, oferecer visões embasadas sobre o desenvolvimento nacional.
“Devemos lembrar que o mercado financeiro estava projetando que o Brasil ia entrar em uma espécie de “buraco negro” [objeto astronômico que absorve a matéria ao seu redor], que a inflação ia disparar, que o dólar ia passar de 7 reais. Nada disso aconteceu, muito pelo contrário. A inflação caiu e eu lembro que tinham analistas, entre aspas, do mercado financeiro, que projetavam a inflação acima de 7%. A inflação em 2025 vai ficar dentro do intervalo de tolerância do regime de metas de inflação, ou seja, abaixo de 4,5% no acumulado em 12 meses. A taxa de desemprego está na mínima histórica e o dólar está abaixo de R$ 5,50. Então, aquele cenário de fim de mundo que o mercado financeiro projetava no final de 2024, no início de 2025, simplesmente não aconteceu, como nós, economistas desenvolvimentistas, achávamos que não ia acontecer”, salienta Oreiro.
Como destaque para 2026, o professor evidencia a importância do impacto expansionista para o consumo com a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil com benefícios para rendas até R$ 7.350, e alíquota mínima de 10% de IR sobre quem ganha mais de 50 mil reais por mês.
“Na prática, isso significa transferir a renda das unidades com menor propensão a consumir, que são os mais ricos, para as unidades com maior propensão a consumir, que são os mais pobres. Então, o cenário esperado para consumo é positivo”, pontua.
E apesar de uma estimativa melhor — o que contrariou os financistas reunidos pelo Boletim Focus —, o professor da UnB reflete que o principal problema será o crescimento baixo atribuído aos juros, uma vez que poderia ser maior.
Sem dar um número exato, pois considera irresponsável fazer isso, mas com o entendimento de que o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá entre 2% e 2,5% em 2025, como já adiantou a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda (MF), Oreiro reconhece que mesmo este resultado de crescimento econômico será muito positivo em comparação com os governos anteriores ao do presidente Lula.
“Fechamos o terceiro ano de mandato do presidente Lula com desempenho na média, em termos de crescimento econômico, muito superior ao dos governos Temer e Bolsonaro, que fizeram uma série de reformas como o teto de gastos, reforma trabalhista e reforma da Previdência, que os economistas liberais, como Samuel Pessoa e Marcos Lisboa, diziam que eram absolutamente essenciais para o Brasil retomar o crescimento. Bom, durante o governo desses presidentes, o crescimento foi medíocre. Na verdade, foi quando se removeu o teto de gastos que a economia brasileira, de fato, começou a crescer mais rapidamente”, defende José Luis Oreiro, que participou recentemente do 8º Workshop sobre Novo Desenvolvimentismo, realizado pela FGV-EAESP, em que apresentou um seminário [no final de 2025] sobre a relação de investimentos, déficits e outros parâmetros em países emergentes como o Brasil, a convite do ex-ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser-Pereira.
Em uma linha semelhante à projeção de que o Brasil deve encerrar o ano com um PIB acima dos 2%, como indica a Fazenda, Manzano entende que o crescimento é razoável frente às dificuldades impostas pelos juros altos. Para ele, o Brasil precisa de um crescimento mais forte nos próximos anos para superar a dívida social que persiste.
O professor da Unicamp ressalta que os avanços sociais trazidos pelo governo Lula, com repercussão na renda das camadas mais pobres, são sinais positivos que devem ser comemorados, mas também classifica a sombra dos juros altos como dificultador desse processo.
“A preocupação é que os juros altos acabam deformando a dinâmica do crescimento econômico, porque o crescimento fica muito dependente ou muito associado aos programas de transferência de renda, a melhora da renda dos mais pobres, o que é positivo, claro, do ponto de vista social, mas os juros altos acabam cobrando um preço caro por isso. Em que sentido? O país não consegue fazer crescer a sua estrutura produtiva, porque com juros a esse patamar tem muito pouco investimento na ampliação da produção, então é um crescimento razoável, mas capenga, de curto fôlego e desequilibrado no sentido de que é muito dependente do gasto dos mais pobres, do consumo dos mais pobres”, destaca.
Dessa forma, o coordenador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho do IE Unicamp enxerga que o país está se enfraquecendo paulatinamente.
“Isso significa que a gente não está criando capacidade nova, a gente está apenas fazendo rodar o motor que já existe. Nesse sentido, os juros castigam demais e a gente tem que ter sempre impulsos extraordinários nas políticas sociais para compensar a falta de crescimento do investimento na capacidade produtiva. Não estamos fazendo o Brasil um país mais forte do ponto de vista da capacidade de gerar renda no futuro. Estamos apenas usando a capacidade instalada de maneira mais acelerada”, diz.
“Muitas vezes isso fica escondido pelos números, pela média do PIB, pelos números do mercado de trabalho, parecendo que as coisas estão caminhando num rumo sustentável, duradouro, mas é apenas um impulso de fôlego curto. E a taxa básica de juros, a Selic, é o principal responsável por essa deformação, por assim dizer, na nossa trajetória de crescimento econômico”, completa Marcelo Manzano.
foonte: portal Vermelho