
Artigo da professora Marcela Carneiro
O ano de 2025 evidenciou, de forma ainda mais nítida, que a luta das mulheres no Brasil não ocorre à margem da vida social, mas no centro das disputas que atravessam o trabalho, a política, a economia e o cotidiano. As desigualdades de gênero se expressaram não apenas em discursos, mas nas condições concretas de existência.
Trabalho, renda e sobrecarga cotidiana
Em 2025, as mulheres seguiram sustentando uma parte significativa da vida social brasileira. Estiveram majoritariamente presentes nos setores de cuidado, saúde, educação, assistência e serviços, enfrentando baixos salários, vínculos instáveis e jornadas ampliadas.
A combinação entre trabalho remunerado e trabalho doméstico continuou sendo uma marca estrutural. Mesmo com avanços no debate público sobre divisão de tarefas e reconhecimento do cuidado, a responsabilidade prática permaneceu concentrada nas mulheres, aprofundando desigualdades e impactos sobre a saúde física e emocional.
Maternidade, cuidado e políticas insuficientes
A maternidade esteve no centro das contradições de 2025. Mulheres mães, especialmente as das classes populares, lidaram com a ausência ou fragilidade de políticas de apoio, como creches, licenças adequadas e redes públicas de cuidado.
O discurso de valorização da família coexistiu com a falta de condições materiais para que mulheres exercessem a maternidade com dignidade. Isso evidenciou que o cuidado, embora essencial para a reprodução da sociedade, seguiu sendo tratado como responsabilidade individual.
Violência, resistência e visibilidade
A violência contra as mulheres continuou sendo uma realidade alarmante em 2025, atravessando diferentes espaços: doméstico, institucional e simbólico. Ao mesmo tempo, cresceu a visibilidade das denúncias e das redes de apoio, impulsionadas por coletivos, movimentos sociais e iniciativas comunitárias.
A luta não se restringiu à denúncia, mas incluiu a reivindicação por políticas públicas efetivas, acesso à justiça e responsabilização do Estado na proteção das mulheres.
Participação política e disputa de narrativas
Em 2025, as mulheres ampliaram sua presença nos espaços de debate público, conselhos, movimentos e instâncias institucionais. Essa presença, no entanto, foi marcada por resistências, ataques e tentativas de deslegitimação.
A disputa não foi apenas por ocupar espaços, mas por transformar prioridades: colocar a vida, o cuidado, o trabalho e a sobrevivência no centro das decisões políticas. As narrativas femininas desafiaram modelos tradicionais de poder e expuseram contradições profundas da democracia brasileira.
Mulheres, desigualdade e organização coletiva
O ano mostrou que a luta das mulheres não é homogênea. Mulheres negras, periféricas, indígenas, trabalhadoras informais e mães solo enfrentaram condições mais duras, revelando que gênero, classe e raça operam de forma articulada na produção das desigualdades.
Ainda assim, 2025 foi marcado por formas de organização coletiva, alianças e redes de apoio que fortaleceram resistências cotidianas e construíram alternativas, mesmo em um cenário adverso.
Um ano que não se encerra em si
A retrospectiva da luta das mulheres em 2025 não aponta para um desfecho, mas para um processo em curso. As conquistas foram parciais, as perdas reais, e as contradições permaneceram abertas.
O ano deixou evidente que a luta das mulheres não se limita a pautas identitárias isoladas, mas está profundamente ligada às condições materiais de vida, ao trabalho, às políticas públicas e à forma como a sociedade se organiza. O futuro segue em disputa, sustentado pela resistência cotidiana de mulheres que, mesmo diante de limites estruturais, continuam afirmando a própria existência e dignidade.