O início do governo Lula foi marcado por uma forte campanha pela redução da taxa básica de juros, Selic, pelo Banco Central (BC). A partir do segundo semestre de 2023, o Comitê de Política Monetária iniciou um ciclo de cortes até os juros se estabelecerem em 10,5% ao ano por algumas reuniões e voltarem a crescer em setembro de 2024. Desde então, foram altas consecutivas que elevaram os juros aos estrondosos 15% a.a. em junho de 2025, cenário que permanece desde então e deixa a taxa no maior patamar desde julho de 2006.
Esse viés contracionista do BC, sob justificativa de controle inflacionário, tem custado ao país. Ainda que a Fazenda indique que o Produto Interno Bruto (PIB) de 2025 ficará acima de 2%, este crescimento não se iguala ao forte impulso de 2023 e 2024, quando marcou 3,2% e 3,4% respectivamente.
Para entender melhor essa trajetória da economia brasileira, tão prejudicada pelos juros altos, o Portal Vermelho conversou com o economista Flauzino Antunes, que é presidente do Sindecon-DF (Sindicato dos Economistas) e da CTB-DF (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil do Distrito Federal).
Antunes falou sobre os acontecimentos de 2025 na economia, as perspectivas para 2026 quanto aos juros e eleições, assim como a atuação do movimento sindical na luta pela redução da taxa Selic. Confira a seguir a entrevista:
Considerando o cenário de 2025, como avalia o ano brasileiro em termos econômicos? Os juros altos foram o grande vilão?
A economia brasileira em 2025 apresentou um desempenho melhor do que muitos previam, especialmente se considerarmos o contexto de juros reais extremamente elevados e prolongados. Crescer acima de 2% nessas condições demonstra, de um lado, a resiliência do mercado interno, sustentada pelo consumo das famílias, pela recuperação do emprego e por políticas públicas que atuaram como amortecedores do ciclo restritivo. Por outro lado, esse crescimento poderia ter sido significativamente maior caso a política monetária não tivesse operado como um freio tão intenso sobre a atividade econômica, que pode ser considerado um dos vilões. Outro vilão foi o conflito político interno brasileiro, proporcionado pelos grupos de oposição no Congresso e pela extrema direita, principalmente no caso do tarifaço do Trump [presidente dos EUA].
Os dados positivos como a inflação convergindo para a meta — inclusive a de alimentos —, a menor taxa de desemprego da série histórica e a retomada da política de valorização do salário mínimo, revelam que há fundamentos reais de sustentação da economia, especialmente quando o Estado atua para dinamizar renda e consumo. Medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda reforçam esse movimento, ao aumentar a renda disponível das famílias e fortalecer o mercado interno, que é central para um projeto nacional desenvolvimentista.
No entanto, é preciso fazer uma leitura crítica. Os juros altos foram, sim, o principal vilão do ano, sobretudo do ponto de vista do investimento produtivo, da indústria e da geração de empregos de melhor qualidade. A política monetária excessivamente restritiva inibiu o crédito, interferiu em investimentos públicos mais robustos no “Nova Indústria Brasil” e também nos fomentos de ciência e tecnologia, bem como encareceu o financiamento das empresas e limitou a capacidade de o país transformar crescimento em desenvolvimento. Além disso, contribuiu para a manutenção de um mercado de trabalho marcado pela precarização e pela informalidade, apesar da melhora nos indicadores agregados.
Portanto, 2025 foi um ano de crescimento e de superação, porém aquém do potencial brasileiro. Os resultados positivos vieram mais da ação do Estado e da força do mercado interno do que da política monetária. Para avançar de forma consistente, o país precisa superar a lógica de juros estruturalmente altos e adotar uma estratégia que combine estabilidade macroeconômica com desenvolvimento, geração de empregos decentes e valorização do trabalho.
E quanto à atuação do movimento sindical na luta contra os juros altos?
A atuação do movimento sindical, especialmente da CTB, tem sido decisiva para tensionar o debate econômico no Brasil e expor os efeitos perversos de uma política de juros estruturalmente elevados. Em 2025, o país operou grande parte do ano com a taxa Selic em patamar real entre as mais altas do mundo, com juros reais girando em torno de 7% a 8% ao ano, enquanto economias centrais operaram com juros reais próximos de zero ou até negativos em alguns momentos.
Esse cenário tem impactos diretos sobre a economia real. Estimativas do próprio Banco Central indicam que cada 1 ponto percentual adicional na Selic reduz o crescimento do PIB entre 0,4 e 0,6 ponto percentual ao longo de 12 a 18 meses. Ou seja, a manutenção prolongada de juros elevados significou menos investimento produtivo, público e privado, menos crédito e menor geração de empregos de qualidade.
O movimento sindical foi fundamental ao demonstrar que a inflação brasileira não teve origem na pressão salarial. Em 2024 e 2025, os salários cresceram abaixo da produtividade média da economia, e a massa salarial só se recuperou de forma mais consistente com a redução do desemprego. A inflação acumulada em 12 meses passou a convergir para a meta, ficando em torno de 4%, com a inflação de alimentos desacelerando de patamares superiores a 8% em anos anteriores para algo próximo de 3% a 4%, reforçando que não havia justificativa social ou econômica para juros tão altos.
Além disso, o sindicalismo tem denunciado que, enquanto o crédito produtivo encolhe, o gasto com juros da dívida pública segue elevado. Em 2025, as despesas com juros nominais permaneceram acima de 6% do PIB, drenando recursos que poderiam ser destinados a investimentos, políticas sociais e infraestrutura. Portanto, a luta contra os juros altos é uma luta concreta contra a financeirização excessiva da economia e em defesa do emprego, da indústria e do desenvolvimento nacional.
Qual é a projeção o senhor faz para o cenário econômico de 2026? Acredita no início de um ciclo de cortes dos juros em breve? E qual o impacto das eleições na economia?
O cenário econômico de 2026 apresenta potencial de melhora, mas ainda cercado de condicionantes importantes. O país chega ao próximo ano com inflação sob controle, dentro do intervalo da meta, crescimento econômico resiliente e um mercado de trabalho aquecido. Em 2025, o desemprego atingiu o menor nível da série histórica, ficando abaixo de 8%, embora cerca de 40% dos ocupados ainda estejam na informalidade, o que evidencia o desafio da qualidade do emprego.
Do ponto de vista monetário, há espaço técnico para um ciclo mais consistente de cortes na taxa de juros ao longo de 2026, caso a inflação permaneça comportada. Com a inflação rodando em torno de 4% e expectativas ancoradas, manter uma Selic em dois dígitos significa sustentar juros reais excessivamente altos, incompatíveis com um país que precisa crescer. O problema é que, historicamente, os ciclos de queda no Brasil são lentos e assimétricos: os juros sobem rápido e caem devagar. Isso limita o impacto positivo sobre investimento e crédito.
Cada ponto percentual de redução da Selic tem potencial de estimular o investimento privado em até 0,5% do PIB ao longo do tempo, além de aliviar o custo do crédito para famílias e empresas. Portanto, o início de um ciclo mais firme de cortes em 2026 seria um elemento-chave para transformar crescimento em desenvolvimento.
Como observa o impacto das eleições de 2026 na economia?
As eleições de 2026 também terão papel central. Processos eleitorais tendem a gerar maior cautela por parte dos agentes econômicos, mas, mais do que isso, colocam em disputa projetos distintos de política econômica. A sinalização de continuidade de políticas de valorização do salário mínimo — que teve reajustes reais após anos de estagnação —, ampliação da renda disponível e fortalecimento do mercado interno podem sustentar expectativas positivas.
Por outro lado, qualquer sinalização de retorno a uma agenda de ajuste permanente, com arrocho fiscal, compressão salarial e subordinação total da política econômica ao rentismo, tende a elevar a incerteza e frear decisões de investimento. Assim, 2026 será um ano decisivo para definir se o Brasil avançará para um ciclo de crescimento com inclusão social ou permanecerá preso à lógica de juros altos e baixo dinamismo econômico.
Em síntese, os dados mostram que o Brasil tem condições objetivas de crescer mais. O desafio é político e econômico: romper com o modelo que privilegia o capital financeiro e recolocar o trabalho, o investimento produtivo e o desenvolvimento no centro da estratégia nacional. Precisamos, urgentemente, retomar o controle estatal do Banco Central, além de criar formas legais no Congresso Nacional de democratizar os conselhos do Copom para a participação dos setores produtivos e dos trabalhadores.
fonte: Portal vermelho