14 de março de 2026
p.4 - Uma leitura política do Brasil de 2025

Imagem: Leia Sempre Brasil (arte gerada com inteligência artificial – Gemini)

Por Tarso Araújo
Editor do LSB

O Brasil em 2025 vive um momento de transição delicada, marcado pela tentativa de reconstrução institucional após anos de instabilidade democrática, polarização extrema e desgaste da confiança pública. O cenário político combina esforços de recomposição do Estado com resistências profundas de forças conservadoras, interesses econômicos concentrados e um Congresso Nacional cada vez mais poderoso e, muitas vezes, desconectado das demandas populares.

O governo Lula atua em um ambiente de governabilidade limitada. Embora tenha legitimidade eleitoral e apoio de amplos setores sociais, enfrenta um Congresso fragmentado, majoritariamente conservador e influenciado pelo poder econômico. Esse desequilíbrio faz com que muitas pautas sociais avancem lentamente ou sejam esvaziadas, enquanto projetos de interesse corporativo e de autoproteção política encontram maior facilidade para tramitar.

O Congresso Nacional consolidou-se como um dos principais centros de poder da República. O uso intensivo de emendas parlamentares — muitas vezes sem transparência adequada — fortaleceu o controle dos parlamentares sobre o orçamento público, reduzindo a capacidade do Executivo de implementar políticas estruturantes. Esse modelo aprofunda o fisiologismo, fragiliza a lógica republicana e distancia ainda mais o Parlamento da sociedade.

No campo da democracia, 2025 ainda carrega os ecos da tentativa de ruptura institucional dos anos anteriores. Processos de responsabilização seguem em curso, mas há forte pressão política por anistias e por mudanças legislativas que relativizam crimes contra o Estado Democrático de Direito. Essa disputa revela que o golpismo não foi superado, apenas reorganizado dentro das instituições.

Socialmente, o país vive uma contradição central: há melhora nos indicadores econômicos e na política social, mas a desigualdade estrutural segue intacta. A política disputa espaço com narrativas simplificadas nas redes sociais, onde a desinformação e o discurso de ódio continuam influenciando parcelas significativas da população, enfraquecendo o debate público qualificado.

A extrema direita, embora derrotada eleitoralmente, mantém base social ativa, presença digital forte e influência sobre pautas morais, de segurança pública e de costumes. Ao mesmo tempo, setores progressistas enfrentam dificuldades de mobilização contínua, em parte pelo cansaço social, em parte pela institucionalização excessiva das lutas.

O Judiciário, especialmente o STF, permanece como ator central na contenção de retrocessos autoritários, o que gera ataques constantes e campanhas de deslegitimação. A judicialização da política, embora necessária em muitos momentos, também expõe a fragilidade do sistema político em produzir consensos democráticos.

Em síntese, o Brasil em 2025 não vive uma crise aberta, mas enfrenta uma disputa permanente de projetos de país. De um lado, a reconstrução democrática, a inclusão social e o fortalecimento do Estado; de outro, a manutenção de privilégios, o autoritarismo disfarçado de ordem e o esvaziamento da política como instrumento de transformação coletiva.

O futuro dependerá da capacidade de o campo democrático dialogar com o povo, disputar consciências para além das instituições e recolocar a política no cotidiano da sociedade. Sem participação popular ativa, nenhuma estabilidade será duradoura e nenhuma democracia estará verdadeiramente segura.