14 de março de 2026
Reprovar ou resolver 2

Ilustração: Leia Sempre Brasil (arte gerada com inteligência artificial – ChatGPT / OpenAI)

Por José Oberdan Leite
Professor

Uma professora Diretora de Turma ligou para uma mãe pedindo a sua presença na escola. Isso porque havia necessidade de se conversar sobre seu filho, posto que ele vinha demonstrando desrespeito para com os professores e descompromisso para com as atividades escolares.

A mãe, ouvindo os porquês da ligação, respondeu:

– Minha filha, se não resolve o problema, reprove!  Ele já completou 18 anos. Eu mesmo não vou aí, não!

Diante desta frase, a colega que antes se sentia com um grave problema a resolver, sentiu-se agora com dois: o filho e a mãe.

Esta mãe parece ser o modelo original das tantas famílias que assumem claramente o papel do descompromisso e, assim sendo, transferem seu papel para a escola. A responsabilidade primeira de educar os filhos é delas. Entregar essa tarefa a escola seria terceirizar responsabilidades.  A educação é uma atitude coletiva, portanto, não funciona com recursos egoísticos ou desamparados de deveres práticos e de sensatez. A família e a escola, instituições formalmente responsáveis pela educação dos jovens, tem caráter diferenciado e, nisso, uma não substitui a outra.

A inflexibilidade das palavras da mãe demonstrava que ela não era proprietária do discernimento, da ponderação e do julgamento. Ela parecia ser detentora da amargura de uma reprovação que, pouco a pouco e ano após ano, foi se manifestando nela de tal forma que agora ela se tornara grosseira até para com quem tenta ser sua parceira na retomada dos valores educacionais do seu filho. Por que reprovar a atitude da professora se, afinal, a educação seria a única aprovação sólida que a mãe poderia deixar para ele, seu filho?

O filho, por sua vez, demonstrou-se descompromissado porque perdeu no seu âmbito familiar e social a ligação entre o respeito, a consideração, a construção, o equilíbrio, o afeto e o amor. Demonstrou ter perdido a compreensão do significado de alguns valores básicos contidos nas palavras “obrigado”, “desculpe”, “com licença”, “pois não”, “bom dia”, “me perdoe”.  E a perda da solidez e eficiência da sua edificação moral dá lugar à impossibilidade de responder, de forma coerente, às questões que a vida lhe coloca à prova.

E a Professora Diretora de Turma?  Vivenciou ali no cotidiano do filho e da mãe valores educacionais que foram colocados à margem. A atitude da professora de telefonar na intenção de resolver o problema junto com a mãe foi reprovada pela própria mãe.

Imagine se Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes tivesse se entregado ao grave problema de enfisema pulmonar, tendo grande parte de sua capacidade de respirar comprometida, e tivesse obedecido em vida à frase:

– Se não resolve, reprove!

Ela não teria criado a primeira organização operária católica, nem o maior Hospital da Bahia. Nós não teríamos hoje nos registros da nossa história a sagrada acolhedora de mendigos e doentes – Irmã Dulce.

Mire-se em Stephen William Hawking que teve o corpo atingido por uma esclerose lateral amiotrófica, doença que quase lhe paralisou a vida e foi condicionado por médicos da época a ter poucos anos de vida. Os médicos chegaram a tal conclusão, obviamente, por terem cedido à frase:

– Se não resolve, reprove!

Stephen Hawking, entretanto, quis viver mais e assim o fez defendendo sua teoria sobre a origem do universo. E hoje, toda a humanidade agradece por sua contribuição.

Thomas Alva Edison era considerado pela escola um mau aluno e seus professores reclamavam do seu comportamento inquieto. Já pensou se sua mãe tivesse absorvido como resposta:

– Se não resolve, reprove!

Ao invés disso ela mesma se tornou a educadora de Thomas e ele, por sua vez, tornou-se um devorador de livros chegando, entre tantas outras invenções, à lâmpada incandescente com filamento de carvão. Ou seja, brilhou e ilumina todos nós até hoje.

Moral: Pior do que ser reprovado é nunca ter aprendido.