
Por José Oberdan Leite
Professor
Ela, aluna do 3° ano, esforçada e sempre risonha, conversava sobre um dia que fora fazer as unhas de uma cliente de fundo de quintal. Confessou-me:
– Pois é, professor, outro dia eu tinha pedido à vizinha a senha do seu wi-fi e ela disse que havia esquecido naquele momento. Eu sabia que era mentira, mas não disse nada. Ela não queria mesmo era me dar a senha do seu wi-fi.
Eu já percebia pelo seu tom de voz que, no final da história, ela sairia ganhando alguma coisa. E continuou:
– Todo mundo no bairro tem wi-fi e eu não tenho porque ainda é caro. Mas outro dia quando eu fui de novo à casa da vizinha, sua filha perguntou lá do quarto qual seria a senha dela. Ela, como não podia sair porque estava fazendo as unhas comigo, falou claro o suficiente pra eu ouvir. E memorizei. Foi o suficiente pra mim. Hoje em dia eu também tenho wi-fi.
– Mas isso é roubo de senha do wi-fi dela, não? Perguntei ansioso pela sua resposta.
– Não. Foi ela que me repassou sem saber. Eu não tomei dela, não!
Eu, interessado em saber mais sobre o universo daquela singularidade humana insisti em perguntas para saber o seu conceito sobre roubo. E ela me explicou:
– Meu filho, eu uso o wi-fi em casa, mas o wi-fi dela continua lá, na casa dela. Vá lá pra ver!
O fato é que, se alguém é roubado, mas não percebe o fato, o roubo para a vítima não existe. O conceito de ladrão e de roubo deixa de ser um fato existencial. Ao contrário, se a suposta vítima acredita ter sido roubada e ainda aponta o causador, mesmo sem sê-lo, o conceito de roubo e de ladrão passa a ser um fato verdadeiro.
O que antes chamávamos de necessidade primária, hoje chamamos de wi-fi. Isso me faz lembrar de uma frase de um colega de trabalho que nos disse fazendo graça:
– A maior invenção depois do pão de milho e da tapioca com ovo foi o wi-fi, meu irmão!
E creio que ele tenha razão posto que, mediante a experiência do wi-fi que descrevi, até o conceito sobre furto eu tive que repensar. E aprendi: roubo só é roubo quando a vítima tem ciência dele.
Moral: Lagarta só é lagarta enquanto não virar borboleta.