
Subtítulo: Participação da URCA e do Geopark Araripe na COP30 reforça que a saída para a crise climática passa pela ciência pública, pelos territórios e pela escuta de povos tradicionais – da floresta ao sertão.
A 30ª Conferência da ONU sobre Mudança do Clima (COP30) terminou em Belém com uma mistura de avanços e frustrações. De um lado, crescimento das metas em energias renováveis, bioeconomia e financiamento climático; de outro, a insistência de grandes produtores de petróleo e gás em adiar o fim dos combustíveis fósseis. Para o Brasil – e para o Ceará – o recado é direto: ou a transição ecológica é justa, com participação dos territórios e da ciência pública, ou ela simplesmente não acontece.
Nesta edição do Leia Sempre Brasil, que também destaca a presença da Universidade Regional do Cariri (URCA) e do Geopark Araripe na COP30, o jornal reforça seu compromisso em olhar a política climática planetária a partir do chão do Cariri e da realidade do povo trabalhador.
Belém, Amazônia e uma COP em disputa
Belém sediou, entre 10 e 21 de novembro, a primeira COP realizada no coração de uma floresta tropical, a Amazônia. O governo brasileiro tratou o encontro como vitrine de um novo ciclo: redução do desmatamento, fortalecimento de energias renováveis, bioeconomia amazônica e retomada do protagonismo diplomático do país nas negociações climáticas.
Os resultados, porém, revelam o impasse global. Um pacote de decisões conhecido como “Belém Political Package” aumentou o foco em renováveis, eficiência energética e financiamento para países do Sul Global, mas evitou compromissos firmes sobre “fim dos fósseis”, travados por países exportadores de petróleo e gás. Na prática, enquanto se fala em hidrogênio verde, biocombustíveis e redes elétricas mais inteligentes, a indústria fóssil segue tentando ganhar tempo.
A cidade-sede também usou a COP para mostrar que desenvolvimento e preservação podem caminhar juntos, com investimentos em bioeconomia, agregação de valor a produtos da floresta, como açaí e castanha, e valorização do conhecimento tradicional como base de uma nova economia. É uma mensagem que interessa diretamente ao semiárido cearense.
URCA, Geopark Araripe e a ciência que nasce no território
No meio dessa engrenagem global, a URCA e o Geopark Araripe levaram o Cariri para o centro do debate climático em Belém. A universidade divulgou, em suas redes oficiais, que vive “um momento histórico” ao participar da COP30, destacando a missão de educação ambiental e a importância da Bacia do Araripe e da Floresta Nacional do Araripe na regulação climática regional.
O Geopark Araripe também marcou presença em rodas de conversa e atividades no estande do Ministério do Turismo, reforçando o turismo sustentável, o patrimônio geológico e a integração entre conservação ambiental e desenvolvimento local como agenda central para o Nordeste.
Em outro momento da conferência, um painel sediado em Belém reuniu reitores e pesquisadores para discutir como envolver populações tradicionais e tecnologias sociais no enfrentamento das mudanças climáticas. Entre os participantes, estava o professor Francisco Lima Júnior, da URCA, ao lado de dirigentes da UFPA e de outras universidades, defendendo a horizontalização dos saberes: o conhecimento científico não tem sentido se não dialogar com indígenas, quilombolas, ribeirinhos e demais comunidades que vivem na linha de frente da crise climática.
Ao mesmo tempo, universidades federais e estaduais de todo o país reforçaram, em diferentes painéis, o papel da educação superior pública na produção de ciência climática, na inovação e na formação de gestores capazes de implementar políticas ambientais em territórios concretos, e não apenas em discursos de palco.
Do Araripe ao semiárido: clima, cultura e desigualdade
Se a Amazônia é vital para estabilizar o clima do planeta, o semiárido nordestino é um dos territórios mais vulneráveis ao aquecimento global: secas mais intensas, risco de desertificação, pressão sobre a produção de alimentos e sobre a água que chega às casas do povo. A agenda climática não é “tema abstrato”; é o cotidiano do Cariri, do sertão e dos pequenos municípios do interior.
A própria URCA e o Geopark Araripe há anos articulam a pauta climática com a Agenda 2030 e com o conceito de “biomas culturais”, reforçando que o desenvolvimento sustentável do Cariri passa por reconhecer o valor do patrimônio natural e cultural, apoiar comunidades tradicionais, fortalecer políticas públicas e combater desigualdades históricas.
Quando pesquisadores do Cariri sentam à mesa em Belém, junto com lideranças amazônicas, universidades da região Norte e movimentos sociais, o recado é claro: não haverá justiça climática sem justiça territorial. O mesmo país que discute finanças verdes, mercado de carbono e bioeconomia precisa enfrentar o racismo ambiental, a desigualdade entre regiões e o abandono histórico de periferias urbanas e rurais.
O que volta da COP30 para o Ceará
No plano nacional, o governo Lula tratou a COP30 como vitrine de uma nova fase da política climática brasileira, conectando combate ao desmatamento, transição energética, fortalecimento de políticas sociais e retomada de investimentos públicos. Para estados como o Ceará, isso abre oportunidades – e responsabilidades.
De um lado, cresce a pressão para que governos estaduais e prefeituras integrem de verdade a agenda climática em áreas como transporte, saúde, habitação, energia e proteção de biomas frágeis. De outro, experiências locais – como a preservação da Chapada do Araripe, projetos de educação ambiental, iniciativas de economia solidária e agricultura familiar – ganham peso como exemplos de transição justa a partir do território.
A presença da URCA e do Geopark Araripe em Belém é, ao mesmo tempo, símbolo e desafio. Simboliza que a ciência produzida no Cariri está conectada com o debate global sobre clima. Mas desafia governos, parlamentares e sociedade civil a transformar esse acúmulo acadêmico em políticas concretas: planos de adaptação às secas, proteção de áreas naturais, apoio a comunidades tradicionais, incentivo à bioeconomia local e investimentos em educação pública, cultura e pesquisa.
Depois da cúpula, a vida real
COPs terminam em textos longos, cheios de siglas e compromissos que nem sempre saem do papel. Mas, para quem está no Cariri, a régua para medir o “sucesso” da COP30 é outra:
- A água vai chegar com mais segurança às periferias urbanas e comunidades rurais?
- Agricultores familiares terão apoio para produzir sem destruir o que resta de mata nativa?
- Povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais serão protagonistas na construção das políticas ambientais?
- A ciência pública da URCA e de outras instituições cearenses será usada para planejar o futuro ou ficará restrita a relatórios em prateleiras?
Ao escolher dar espaço, nesta edição, à presença da URCA e do Geopark Araripe na COP30, o Leia Sempre Brasil assume um lado: o lado de quem entende que a luta climática não é neutra. Ela é disputa de modelo de desenvolvimento, de poder e de projeto de país. E, nessa disputa, a voz da Amazônia, do semiárido e da classe trabalhadora precisa ecoar mais alto do que o lobby dos fósseis.
Belém pode até ser o palco da COP. Mas é no Cariri, nos bairros, nos assentamentos, nos sindicatos e nas universidades que a transição ecológica justa vai ser, de fato, vencida ou perdida.