
Zumbi (1927), pintura de Antonio Parreiras (1860 – 1937) Acervo do Museu Antonio Parreiras, Niterói
O feriado do Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, volta a reacender um debate que o Brasil insiste em adiar: o enfrentamento real das desigualdades raciais que atravessam a história nacional desde o período colonial. Especialistas em sociologia e estudos raciais afirmam que a data cumpre um papel fundamental ao revelar que o racismo brasileiro não é um fenômeno isolado, mas resultado direto de condições materiais que se perpetuaram no tempo.
De acordo com a perspectiva do materialismo histórico-dialético, corrente teórica inaugurada por Karl Marx, a escravidão não pode ser entendida como um episódio trágico desconectado das bases econômicas do país. Pelo contrário, ela foi o eixo central da acumulação de riqueza no Brasil. “Nenhuma estrutura de dominação existe sem interesses materiais por trás”, aponta o pensamento marxista. A sociedade brasileira herdou, assim, uma lógica de exploração que continuou operando mesmo após a abolição.
O sociólogo Florestan Fernandes já alertava que a abolição, em 1888, foi incompleta: libertou corpos, mas não garantiu acesso à terra, educação ou trabalho digno. O resultado é uma desigualdade que atravessa séculos e permanece evidente nas estatísticas de renda, moradia, escolaridade e violência.
A figura de Zumbi dos Palmares, lembrada na data, simboliza justamente essa resistência. Historiadores como Clóvis Moura destacam que o Quilombo dos Palmares foi mais do que um refúgio: constituiu uma experiência política e econômica que confrontou o sistema escravista, mostrando que a população negra sempre lutou por autonomia.
Nos estudos contemporâneos, o conceito de racismo estrutural, aprofundado pelo jurista Silvio Almeida, reforça a interpretação histórica: o racismo no Brasil não se resume a atitudes individuais, mas compõe o funcionamento cotidiano das instituições. Essa estrutura distribui desigualmente oportunidades e vulnerabilidades e serve, em muitos aspectos, à manutenção das hierarquias econômicas.
Para pesquisadores e movimentos sociais, esse conjunto de análises explica por que o Dia da Consciência Negra permanece indispensável. O feriado não é apenas uma celebração cultural, mas um convite à reflexão sobre a persistência de contradições que moldam a sociedade brasileira.
Mais do que homenagear Zumbi ou reconhecer a contribuição negra, especialistas defendem que o 20 de novembro aponta para uma urgência coletiva: criar condições reais para que o Brasil enfrente sua própria história e avance rumo a uma democracia que não deixe ninguém para trás — em especial aqueles que sustentaram, com trabalho e resistência, as bases do país.