
Ilustração: LSB/Desenvolvido com apio de IA
Por José Oberdan Leite
Professor
Quando eu estava na minha sala tentando cumprir meu papel de coordenador escolar, uma das meninas da limpeza entrou tranquila, com seu grande balde de plástico amarelo e quase cheio de água misturada à cera líquida. Colocou o pano no rodo, mergulhou na água e iniciou sua tarefa de limpeza.
Era dona de um mexe-mexe pouco silencioso, mas eu continuei digitando meus planejamentos prioritários. Lá pelas tantas, depois de limpar o lado de fora, ela veio para o lado de dentro trazendo seu armamento de limpeza. A moça se aproximou, começou a passar o rodo num mexido leve e, ao mesmo tempo, perturbador. Parecia só haver na sala ela e aquele rodo de abas flexíveis envolvido num pano molhado sendo esfregado calmamente no piso.
Surgia, dentro de mim, uma guerra em que minha privação lutava pela reinvindicação de direitos contra o trabalho dela. Meu silêncio não cedia, mas, ao mesmo tempo, se desgastava tal qual o pano mole no assoalho duro. Nosso silêncio, o meu e o dela, devagar e insistente, lembrava-me a Guerra de Troia, eternizada na ilíada de Homero. Todos os deuses do meu Olimpo desceram para o campo de batalha. Meu ego, envolto numa grande muralha troiana, se resumia numa frase carnavalesca – “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Porém, a moça naquele tranquilo vai-e-vem de um rodo com um chiado chato que se transformou num grande cavalo de madeira invadindo a minha Troia particular obrigou-me a levantar da cadeira e sair do ambiente para que ela continuasse sua invasão grega. E só depois, bem depois, eu pude continuar o meu trabalho.
Jamais havia pensado que meus afazeres, de tanta necessidade e urgência escolar, fossem ceder à tranquilidade daquela moça com seu rodo calmo e eficaz que me venceu sem nem participar, conscientemente, da guerra traçada naquele local.
Moral: A sua derrota não está, precisamente, na vitória do outro.