6 de março de 2026
Cultura em Debate 1

Por Andson Andrade

“A literatura, ao longo da história [pede] espaços próprios para a partilha, para fruição coletiva, difusão do trabalho artístico e para o prazer. Reunir-se para expressar a literatura é uma prática de muitas manifestações culturais, foi um momento onde a oralidade e a palavra escrita se encontram e se ampliam mutuamente”. A Escola de Ensino Médio e Profissional do Campo – Antônio Tavares Alves, localizada no Assentamento Logradouro em Canindé/CE, conjuntamente com o Centro de Formação Memória Arte e Cultura Camponesa – Rosa Luxemburgo, realizou no dia 05 de novembro de 2025 – o Festival Literário da Biblioteca Popular Carolina Maria de Jesus. Após um mês repleto de planejamento das atividades literárias e de preparação dos educandos, aconteceu o I Festival literário

A educadora Celina Lima, destacou que: “A inauguração da Biblioteca Popular Camponesa Carolina Maria de Jesus foi o pontapé inicial para Outubro literário, espaço este que abriu suas portas para que a comunidade escolar possa usufruir deste direito historicamente negado, e ao longo do mês contou com diversas atividades literárias, como a Tertúlia dialógica com a leitura e reflexão da obra Olhos d’água de Conceição Evaristo, sob a orientação das educadoras de Língua Portuguesa, a Oficina “No batuque do pandeiro vou dançar esse trupé: memórias musicadas nas rodas de coco caririenses”, com a participação da estudante do curso de Música do Ifce e arte educadora Bruna Hellen Andrade Nascimento e o Cine Clube Camponês, apresentando o filme: A hora da Estrela”.

“A todo instante somos bombardeados o tempo todo com apelos para dispersão da nossa atenção. Sobretudo, agora, pela forma volátil e viciante da comunicação virtual. Tudo parece conspirar para nos desviar das páginas [física] dos livros”. “O nosso desafio coletivo [é] romper com essa lógica que aprisiona o nosso pensamento, a nossa imaginação”.

OBJETIVO DO EVENTO

Mergulhar no universo das obras literárias, estimulando a leitura e despertando para a necessidade de ampliar as iniciativas de aproximação para com a literatura. Ao considerar a diversidade das temáticas de conteúdo social e politicamente relevantes, enfatizou-se no evento a importância das autoras negras, tão esquecidas na literatura. Sendo assim, se debruçarmos sobre o acervo literário proposto pelo Coletivo Intersetorial do MST, tão necessário no currículo da Escola do Campo Antônio Tavares, diálogo mediado com a Biblioteca Carolina Maria de Jesus e a Academia Popular Literária Sem Terra – ALRA.

A (ALRA) desenvolve as vivências no ambiente de aprendizagem mistificado, crítico e emancipador, construindo um território acolhedor de nossa juventude camponesa, das Comunidades e Assentamentos, fortalecendo a identidade camponesa de luta e resistência, na visão freireana de uma educação para autonomia.

O evento marcou a grande celebração da leitura, da escrita e da cultura camponesa, onde aconteceu uma série de atividades artísticas e culturais, esquetes, coreografia, defesas de obras, rodas de conversa, momento de muita inspiração literária! Em síntese, o Festival Literário 2025, apresentou a toda comunidade escolar argumentos convincentes dedicando todo o seu tempo para a literatura como formação de sujeitos leitores, acolhendo os ensinamentos! Certa feita, Antônio Candido nos disse que “a literatura desenvolve em nós a cota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante.”

Com este entendimento, o MST ao internalizar a literatura como cultura, torna-se uma longa empreitada, cuja missão acompanha há muitas décadas. Logo, faz exigir da companheirada muita perseverança, criatividade, espírito de iniciativa e muito trabalho. No nosso Brasil, a cultura letrada historicamente foi um privilégio das classes dominantes, por conta disso, muitos de nós não temos o hábito da leitura. Mas, ler abre [portas] para nós [é] um universo de possibilidades de conhecimento, tarefa necessária que exige disciplina, planejamento e dedicação.

O Festival Literário – foram selecionadas mais de 29 obras da literatura brasileira que os educandos apresentaram os seus respectivos resumos de forma oral ou em forma de teatro, mostrando seu contexto, autoria, problematização e enredo, numa espécie de convite ao mundo da leitura e também um chamamento para as próximos festivais literários.

HOMENAGEADOS – 2025

Para a Educadora da Josulene Mota, o ato da entrega das comendas aos convidados foi um momento único: “De muita gratidão na página na Escola EEMPC Antônio Tavares Alves, onde reconhecer a atuação e dedicação a nossa comunidade escolar nos permite valorizar além das palavras para com a história local”. Finalizou: “Obrigado é um gesto de reconhecer aos que nos ajudam, fazendo a semente da educação do campo florescer”.

Foram agraciadas/os com a presença ilustre dos artistas da arte da palavra: o Senhor Raimundo Lauriano (poeta cordelista), Amarílio Ribeiro (professor e poeta), Alfredo Paz (poeta e comunicador), Fernando Miguel (cantor e compositor), Arlando Marques (cordelista), Juliana (exposição de obras do esposo) da educanda Thailana Castelo (aboio e toada) dentre outros artistas.

Em conversa com o Jornal Leia Sempre Brasil a coordenadora da Antônio Tavares Alves, EEMPC – Rosinira Bezerra, afirmou que: “A nossa meta é seguir com o projeto: “Ler o Mundo e Reescrevê-lo – Criando um Território de Luta, Afeto e Libertação”, da Biblioteca Popular Carolina Maria de Jesus,  fomentada pelo Centro de Formação, Memória, Arte e Cultura Camponesa Rosa Luxemburgo e pela Academia Popular Literária Sem Terra do Ceará”. “E fazer destas vivências, espaço de aprendizagem mistificado, crítico e emancipador, construindo um território acolhedor de nossa juventude camponesa, das Comunidades e Assentamentos, fortalecendo a identidade camponesa de luta e resistência, na visão Freiriana de uma educação para autonomia”.

Outro momento marcante do Festival Literário, foi a mística tendo como protagonistas os educandos/as, dando visibilidade às obras, relacionadas às narrativas da vida em contextos de insubmissão, pois a escola do Campo Antônio Tavares Alves, tem sede de arte, terra e pão. E, como afirmou Antonio Cândido: “A Literatura é o sonho acordado das civilizações!”

A educadora Celina Lima, falou ainda para o Cultura em Debate de que: “O direito à literatura! Foi com esse mote, que o Outubro literário, na Escola de Ensino Médio e Profissional do Campo Antônio Tavares Alves, foi pensado e desenvolvido na tentativa de romper com uma estrutura de sociedade que historicamente negou à parte da população brasileira, o direito ao conhecimento e, sobretudo, o direito à literatura, fazendo com que muitos de nós, camponeses, periféricos, indígenas, quilombolas, não tivesse o hábito da leitura. Esta atividade pedagógica tem o intuito de fortalecer a mística e construir um território acolhedor, vivo de leitura, escuta sensível, escrita e protagonismo de nossa juventude camponesa, das Comunidades e Assentamentos da Escola do Campo Antônio Tavares”.