
Ilustração: Leia Sempre Brasil
Por José Oberdan Leite
Professor
– Fome é fome, cara, não tem sabor nenhum.
Esta foi a frase de um dos dois alunos que passaram por mim discutindo a situação alimentar mundial.
Esse momento me trouxe à reflexão uma pergunta: que sabor, afinal, tem a fome?
E a resposta se faz presente pelo óbvio que me responde.
– A fome tem o sabor que lhe é dado. Um pedaço de tapioca, por exemplo, dependendo do grau da fome, pode se tornar um bife suculento.
A pequena Marina, com o nariz escorrendo gripe e com sua boneca desnuda na mão, chora uma fome que há muito lhe é companheira. Agarrada ao vestido de sua mãe, Dona Joana, suja de cinzas do fogão de lenha, elas esperam Seu Joaquim à margem da porta. Dona Joana carrega, além de um filho de sete meses na barriga, a esperança de que seu Joaquim traga arroz, feijão e um pacote de leite para sentenciar a fome da filha. E ele traz além do esperado por elas, um bafo forte de três doses de pinga, devoradas no bar do Bia. A cachaça é bruta, mas lhe permite chegar feliz carregando meio quilo de feijão, um pacote de arroz e o leite da criança. Todos comem, mas continuam desalimentados. A fome tem sabor de desnutrição.
Seus Moisés, um pedinte da feira de sábado à tarde, ficava costumeiramente sentado ao lado da parede amarelada do mercado, com sua cuia esperando trocados. Tinha uma barba e um bigode grandes e cinzentos. A cor e o tamanho de sessenta e tantos anos de idade escondiam uma boca sempre faminta. Arrastava ele um silêncio seco por sentir a dor crua do desprezo humano que lhe cutucava as entranhas mais profundas. Outro dia eu vi que a mesma vasilha de plástico de sorvete que lhe servia para pedir trocados, servia para beber água, tomar banho e comer o que lhe aparecia. Ele também desfrutava sobras de pão dormido com caldo de mocotó dividido com um colega também esmoler. Apresentavam os dois um desejo inflamado de matar aquilo que lhe devorava. A fome, diante do resultado daquela partilha, tinha um sabor de irmandade.
Neste momento na África, Akin Iorubá é mais um exemplo da prova existencial de tristes e mórbidos cadáveres ambulantes que, mesmos enfraquecidos pela fome, ainda lutam pela vida. As forças humanas produtivas empresariais ao perceberem que, diante da fome, seria mais lucrativo explorar do que abastecer, nunca mais se interessaram em ensinar a plantar e a colher. Isso, porque plantar e colher não só poderia matar a fome como também faria morrer o lucro. Entre a produção e consumo está a organização da fome que é apenas um meio pelo qual o empresariado tira suas vantagens e disso vive muito bem. A situação de miserabilidade africana existe há anos. E por que qualquer solução ainda não foi praticada? A fome aí tem sabor de lucro. É a exploração extrema do homem pelo homem.
Doutor Jorge, tido como uma das grandes competências intelectuais e técnicas empresariais do nosso meio, percebeu que a sociedade, ao sentir fome, não precisaria saber do valor nutritivo, mas apenas sentir o sabor do que come. Ele vende, portanto, sabores através de propagandas invasivas, descaradas e mentirosas. Ele sabe que comer salgados artificiais empacotados com nomes de natureza, não mata a fome. Beber refrigerantes, não mata a sede e nem alimenta. Contudo, o que importa para o seu negócio são marcas e arranjos comerciais devoradores. É claro que o mercado espera que a fome da sociedade tenha apenas o sabor de dependência dos seus produtos. A fome aqui tem sabor de ilusão de consumo.
Péricles empresaria uma das redes sociais mais conhecidas e faz parte de uma aristocracia que rigorosamente travou lutas para que lhe fossem aplicada a política de seguridade alimentar em sua mesa. Em suas tantas, finas e requintadas estratégias de persuasão de marketing, sempre divulga a ditadura da fome nas mais diversas configurações. Nunca importa se o produto divulgado em sua rede alimenta ou mata. A fome aqui tem sabor de mentira exploratória.
Se a fartura indecorosa tem aspecto nobre, tem alma pobre. Se a garantia do meu sucesso é obtida baseando-se na sua fome, meu progresso não é real, é um fracasso, um retrocesso com nome de sucesso. É apenas uma mentira. A fome do outro acontece porque eu me tornei imune à tristeza do outro, à dor do outro, à fraqueza do outro.
Carrega-se num prato de comida o sabor do arroz, da moral, do feijão, da humanização, da carne, da cultura, do tempero, da religiosidade, da verdura, da ideologia, do legume, da educação e de outros tantos sabores. A fome é o resultado de um prato cheio de ignorância, de avareza, de vaidade, de orgulho, de gula, de indignidade e de diversos outros maltratantes dissabores. Matar a fome é viver a comida, com a felicidade que lhe acompanha. Matar a fome é comer e viver o abraço, o beijo, o carinho, a alegria, a paz, a honra, o amor,…
Caso não nos saciemos de vida, seremos eternos morredores da fome.
Moral: Fome só é bem quista quando precede a certeza da comida.
SOBRE O AUTOR
José Oberdan Leite, barbalhense, é professor formado pela URCA-Universidade Regional do Cariri com formação também em Pedagogia (UCAM) e com Pós-graduação em Língua Inglesa (URCA), Língua Portuguesa (URCA), Psicopedagogia Escolar (FJN), Gestão Escolar Administração, Supervisão e Orientação (UCAM) e Liderança e Coaching (FMJ). Atualmente cursa mestrado acadêmico em Ciências da Educação pelo Instituto Educainter. Atua como servidor público do estado do Ceará na EEMTI Alaide Silva Santos, Juazeiro do Norte-Ceará.Encontrou nas observações e vivências escolares cotidianas o ensino e o aprendizado para a vida.Hoje, tais experiências pedagógicas são transformadas em contos, a fim de que cada leitor, envolto pela esfera da consciência educacional, possa discutir casos, ampliar conhecimentos e transformar, com sabedoria, pessoas.