
Por Tarso Araújo
É sábado, e como em todo sábado já sabemos que é um dia que ela preparava a velha feijoada com pé de porco. Inimaginável saber que o mundo existe sem a feijoada dela.
Estamos no mundo atual superando barreiras, indo longe, quem sabe dia desses a gente se muda para Marte ou outro planeta. A tecnologia avançou, falamos e pesquisamos temas que antes só encontrávamos nos livros e nas bibliotecas.
Mas a feijoada dela ninguém esquece.
Era sábado e o sol já entrava preguiçoso pelas frestas da janela. No ar, aquele cheiro inconfundível de alho refogado, cebola dourando, o feijão preto começando a borbulhar. A cozinha parecia um palco, e a panela de ferro, a grande estrela da manhã.
Quem já provou sabe que feijoada não é só comida, é rito. Quase uma religião. Enquanto as carnes descansam depois do sal arrancado nas águas da véspera, a família se ajeita. Há sempre quem reclame da demora, quem belisque o torresmo escondido e quem se ofereça para “ajudar”, mas só atrapalha, mexendo a colher no tempo errado.
E ainda tem a meninada correndo de um lado para o outro. Não tem quem tenha sossego com tanto menino correndo, alegre, festeiros, como se não houvesse mais tempo ou passado, apenas futuro.
E ainda tem o seu Manoel da padaria que quando passa em frente à casa dá uma paradinha e ele olha com olhos de desejo a fumaça e sente o cheiro do que deve vir logo mais no almoço.
E a Carminha? Ah, lá vinha Carminha com seu corpo balançando ao som de um samba ou forró, faceira, linda, escultural e deixando todo garoto olhando de bater cara no poste.
Na sala, a roda de conversa começa antes da roda de samba. Os risos são tempero. O cheiro invade a casa, a rua, talvez até o bairro inteiro. Feijoada tem esse dom, pois junta gente de todo canto e de todo jeito. Aproxima vizinhos, faz amigos de ocasião.
É espaço mais badalado que reunião da Universal.
Quando enfim a panela se abre, não é apenas o feijão que se serve é a própria memória das pessoas e daquele lugar. Isso fica impregnado e vai com a gente onde formos. Mesmo passando tanto tempo longe de casa não há quem não se lembre da comida, do cheiro dos seus, do ambiente e das luzes.
É o gosto da infância, das festas de família, dos encontros de amigos. É tradição que não se perde, porque vai além do prato – é celebração.
E cada garfada, ladeada pelo arroz branquinho, a couve refogada e a laranja fresca, confirma o que todo brasileiro já sabe: feijoada não é refeição, é abraço em forma de comida.
No fundo, talvez seja isso mais que alimentar, a feijoada nos lembra de que viver também é sentar à mesa, partilhar e sorrir.