
Essa semana, na disciplina de Lógica, Curso de Filosofia, por algum motivo surgiu o tema da religião. Foi uma saraivada de críticas às igrejas. Eis que surge a pergunta: em que momento nos perdemos? Tenho me feito esta mesmíssima pergunta desde aquela fatídica eleição para Presidente da República em 2018.
Logo me lembrei do livro O Conto da Aia, da escritora canadense Margaret Atwood, em que um grupo fundamentalista se valendo de um discurso de tornar o mundo um lugar melhor para se viver, mata o presidente da república dos Estados Unidos, fecha o senado e funda a República de Gilead, um “país” onde a Constituição perde lugar para a Bíblia.
Voltemos a realidade. Se bem que a própria Margaret Atwood é enfática ao dizer: tudo o que está no Conto da Aia já aconteceu em algum lugar do mundo: Ditadura, controle reprodutivo, censura, desigualdade de gênero, perda da individualidade e da identidade em um regime opressor.
A sensação que tenho é que o ano de 2018 foi um divisor de águas não só para a política brasileira, mas também para as relações entre familiares, amigos e trabalho. Amizades foram desfeitas. Membros da mesma família deixaram de se falar. As (futuras) relações amorosas passaram a ser pautadas na pergunta: “em quem você votou na última eleição?” Nada mais foi como antes. Religião e Política são dois combustíveis inflamáveis.
Podem me chamar de boba: vou me lembrar de um texto da Clarice Lispector – “Das vantagens de ser bobo” – e vou tomar como elogio. Mas até aquele fatídico ano, discordar do outro, ter opiniões políticas divergentes era, para mim, a mola propulsora da Democracia.
De 2018 para cá, diferir do outro tornou-se sinônimo de medo, ódio e até mesmo de morte. O poeta gauche Carlos Drummond de Andrade tinha razão: não podemos mais cantar o amor refugiado “mais abaixo dos subterrâneos”. Ultimamente temos cantado o “medo dos soldados”, o “medo das igrejas”, o “medo dos ditadores” e até mesmo o “medo dos democratas”.
Ou seja, o medo, essa emoção universal, presente nas mais diferentes esferas da vida, tem dominado a cena política brasileira. Com o lema “Deus, pátria e família”, a extrema direita tem enfatizado um retorno aos valores conservadores, que ao lado do liberalismo, tem propagado o discurso de ódio. Por trás dele, há o medo da mudança e, consequentemente, da perda dos privilégios da classe dominante.
O fato de a classe dominada ter acesso à universidade, a viajar, mesmo que não seja de primeira classe, a conquistar o sonho da casa própria, frequentar restaurantes caros, causa um mal-estar àqueles que sempre foram servidos por essas pessoas.
Em nome da manutenção dos privilégios de poucos incita-se o povo a invadir e depredar as sedes dos três poderes em Brasília. Traça-se um plano para matar o presidente e o vice, assim como um dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.
Quando eu bobamente imagino que nada de pior possa acontecer depois dos fatos narrados, os Estados Unidos, cujas forças militares estavam a postos para apoiar o Golpe Militar de 1964, começam a intervir na soberania brasileira com a anuência de políticos brasileiros. Bobo é quem acredita que o tarifaço imposto por Donald Trump às exportações do Brasil é por motivação comercial.
Há quem diga que o que está ruim pode piorar. Foi o que aconteceu. Após o termino do julgamento por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado, com uma pena de vinte sete anos e três meses de prisão a Jair Bolsonaro, a Câmara dos Deputados, aprovou a PEC da Blindagem, que amplia a proteção legais aos parlamentares, dificultando a abertura de processos e a prisão de deputados e senadores.
Não temos como saber de fato quando nos perdemos. Não temos como saber como a política partidária sequestrou as pessoas com quem convivemos toda uma vida, ou simplesmente não as conhecíamos tão bem como pensávamos, ou se como Pessoa, fingíamos não ver seu conservadorismo, sua falta de empatia, seus preconceitos etc. É urgente tirar as pedras do meio do caminho!