
Foto: Reprodução/Ministério da Cultura
Por que a 2ª Marcha das Mulheres Negras precisa virar pauta de Estado
Marcada para 25 de novembro de 2025, a 2ª Marcha das Mulheres Negras promete levar a Brasília milhares de vozes que exigem reparação histórica e Bem Viver — viver sem violência, racismo e fome; com creche, escola, universidade e respeito às tradições. Não é um “evento”. É um programa mínimo de civilidade e democracia.
Mobilização que começa nos territórios
A edição desta semana registra a articulação da Marcha chegando às câmaras municipais, como em Juazeiro do Norte, onde lideranças apresentaram a pauta e pediram apoio. O gesto é pedagógico: política pública nasce da base. É nos municípios que a vida acontece — e é lá que a ausência de políticas também mata.
O dado que corta
No Cariri, tivemos quatro feminicídios em uma única semana recentemente — um retrato brutal do que o movimento denuncia: a naturalização da violência contra mulheres, especialmente negras, e a insuficiência das respostas do Estado. Tratar isso como “casos isolados” é tapar o sol com a peneira.
Não é só marcha — é política pública
A Marcha traz um léxico que precisa virar planejamento de governo:
- Reparação: reconhecer e enfrentar os efeitos de séculos de escravidão e racismo institucional, com políticas de distribuição de renda, acesso à terra, cotas, proteção social e justiça.
- Bem Viver: reorganizar prioridades — saúde, educação, cultura, segurança alimentar, moradia e meio ambiente — com participação real das mulheres negras nas decisões e nos orçamentos.
Essa agenda está detalhada pelos coletivos que constroem a Marcha e ecoa há dez anos, desde 2015. Agora, volta ampliada e capilarizada nacionalmente.
Segurança para viver, não para sobreviver
Sem prevenção à violência (rede de acolhimento, casas-abrigo, delegacias especializadas 24h, juizados com celeridade) e autonomia econômica (creches, emprego, crédito, compras públicas priorizando empreendimentos de mulheres negras), falaremos de “combate ao feminicídio” só depois do crime. O Ceará já aponta caminhos ao reforçar estruturas especializadas de enfrentamento — é preciso escalar e integrar a rede.
Do local ao nacional: o que fazer já
- Prefeituras e câmaras: aprovar frentes de apoio à Marcha, garantir transporte para as caravanas e formalizar planos municipais de Bem Viver com metas e orçamento.
- Estados: integrar segurança, assistência e saúde para mulheres; ampliar cotas, bolsas permanência e moradia estudantil; criar editais culturais voltados a produtoras negras.
- União: institucionalizar um Plano Nacional de Reparação transversal (educação, trabalho, terras quilombolas, crédito), com indicadores e controle social.
- Justiça e MP: protocolos de investigação rápida de feminicídios e violência doméstica, banco de dados unificado e responsabilização efetiva de agressores.
- Sociedade: apoiar financeiramente coletivos, participar das caravanas e ocupar os espaços de decisão — dos conselhos às audiências públicas.
Soberania começa no corpo
O Brasil discute tarifas, câmbio e geopolítica — e deve. Mas não há soberania com mulheres negras sob mira da violência e do racismo. A 2ª Marcha não “divide o país”; ela revela nossa contradição central e oferece um mapa de saída. Cabe aos governos transformar essa urgência em política de Estado; cabe a nós sustentar a mobilização até que reparação e Bem Viver deixem de ser palavras e virem orçamento, lei e rotina institucional. Novembro é o ato. O trabalho é agora.