
Verônica Isidorio ao lado direito da imagem | Foto: Reprodução/Redes Sociais
A segunda marcha das mulheres negras do Brasil já tem data para acontecer, vem sendo mobilizada nas cidades e estados Brasil afora, com uma mobilização que já começou e vem sendo feita por entidades e movimentos comprometidos com a luta das mulheres em nosso país. O movimento marcou para 25 de novembro uma ampla mobilização em Brasília.
Verônica Isidorio, educadora e integrante dos Comitês Impulsor Regional e Estadual da Marcha da Mulheres Negras afirma que o momento agora é de mobilização e de reflexão. “Estamos mobilizando todos os municípios, todos os estados, para termos representações de mulheres em Brasília e estamos marchando por reparação e bem viver, estamos numa região do Ceará que mais tem registrado índices de violência contra as mulheres”, afirmou.
Verônica lembrou ainda que no mês de junho de 2025 tivemos um mês terrível para a vida das mulheres registrando quatro feminicídios na Região do Cariri no período de uma semana. “Isso é um absurdo e nossa reivindicação principal é que a gente possa viver, e isso não é pedir demais e a marcha que vamos realizar é lutar por uma vida sem racismo, sem violência contra as mulheres, sem lgbtfobia, sem fome, com creches, com escolas para as crianças, com universidades amplas e acolhedoras e sem racismo religioso”, afirmou.
Com a contagem regressiva aberta, diversas organizações negras realizaram encontros regionais preparatórios. No último dia 26, ocorreu a inauguração do escritório operativo da marcha, no Museu da República, em Brasília. O evento contou com a presença da ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e de lideranças como representantes do Movimento Negro Unificado e da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).
Segundo Vinólia Andrade, coordenadora executiva da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a meta é construir um movimento de grande escala nacional. A ativista Thanisia Marcella Alves Cruz, do comitê organizador, explica que “reparação” refere-se à denúncia das políticas históricas que institucionalizaram o tráfico de pessoas escravizadas, a perda de direitos e o genocídio da população negra. Já o conceito de “Bem Viver” propõe uma mudança radical nas práticas sociais, para garantir dignidade e justiça para as comunidades negras.
Estados e municípios podem criar seus próprios comitês para organizar caravanas e atividades de mobilização. Um exemplo disso é o que acontece aqui mesmo na Região do Cariri.
Nesta semana, durante sessão da Câmara Municipal de Juazeiro do Norte aconteceu um pequeno, mas importante momento em que os parlamentares puderam ouvir lideranças do movimento de mulheres do Cariri, que foram ao legislativo falar sobre a 2ª Marcha das Mulheres.
A ida do movimento de mulheres se deu via uma articulação feita pelas vereadoras Professora PG, Jaqueline Gouveia, Rita Monteiro e Auricélia Bezerra. Verônica representou um grupo de mulheres e movimentos que articula a participação do Cariri na marcha das mulheres negras em novembro.
Verônica Isidorio falou que o objetivo da ida ao legislativo juazeirense foi para debater um pouco a questão das mulheres. “A gente sabe, a gente entende que é sobre a nossa vida e se é sobre a nossa vida nós vamos aparecer sempre, fazer o debate que for necessário para continuar a nossa luta”, enfatizou.
Segundo Verônica Isidorio é uma marcha nacional, e a ideia é unir 1 milhão de mulheres negras em Brasília com o tema reparação e bem viver. “É uma construção que vai além da marcha para que essa marcha construa a possibilidade de efetivação e construção de políticas públicas pois só assim a gente vai conseguir mudar a realidade da violência e falta de direitos das mulheres negras”, afirmou.
História da Marcha das Mulheres Negras no Brasil
A Marcha das Mulheres Negras é uma das maiores mobilizações políticas e sociais organizadas por mulheres negras na história do país. Seu objetivo central é denunciar o racismo estrutural, o sexismo e outras formas de opressão que afetam diretamente a vida das mulheres negras, além de reivindicar reparação histórica e o direito ao Bem Viver — conceito que engloba dignidade, justiça social, equidade e valorização das tradições e culturas negras.
A primeira edição ocorreu em 18 de novembro de 2015, em Brasília, e teve como tema: “Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver” e foi organizada por um conjunto amplo de coletivos, redes e movimentos negros, feministas e de mulheres quilombolas, indígenas e de periferias urbanas.
Colocou em pauta, de forma inédita em escala nacional, temas como violência policial contra a população negra, a precarização do trabalho feminino negro, desigualdade salarial, falta de acesso à saúde e educação de qualidade, além da urgência de políticas públicas voltadas especificamente para mulheres negras.
Apontou um marco simbólico: o fortalecimento de uma agenda nacional articulada por mulheres negras, com visibilidade e protagonismo próprios.
O significado da reparação e do bem viver
A ideia de reparação dialoga com a necessidade de enfrentar as consequências históricas da escravidão e do racismo institucional, que ainda se refletem na marginalização social e econômica da população negra. Já o Bem Viver é um conceito inspirado em filosofias afro-diaspóricas e indígenas, propondo uma vida equilibrada, com justiça social, respeito aos direitos humanos e preservação cultural ambiental.
O caminho para 2025 – a 2ª marcha
Dez anos após o ato histórico de 2015, o movimento retorna com a 2ª Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, marcada para 25 de novembro de 2025, novamente em Brasília.
Será o resultado de uma ampla mobilização nacional, com encontros regionais e municipais. É organizada por um Comitê Impulsor Nacional, que reúne redes e organizações como a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), o Fórum Nacional de Mulheres Negras, a Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate à Violência, o FONATRANS – Fórum Nacional de Travestis e Transexuais, entre outras.
Além de cobrar políticas públicas específicas para mulheres negras, a marcha de 2025 tem como pauta fortalecer a participação política dessas mulheres, incentivando candidaturas e ocupações de espaços institucionais de poder.
Assim, a Marcha das Mulheres Negras consolida-se como um marco de resistência, luta e proposição, mostrando que as mulheres negras não apenas denunciam as desigualdades, mas também constroem soluções e alternativas para um Brasil mais justo e igualitário.