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O impacto do aumento das tarifas de importação nos Estados Unidos está apenas começando a ser sentido, criando incerteza entre trabalhadores e empresas que operam com mais de 3.000 itens que serão taxados em excesso.

Embora estratégias imediatas, como gestão de estoque, aceleração de embarques ou redução da produção, marquem as primeiras reações, uma opção possível é buscar novos destinos para a produção. No entanto, a busca por mercados de exportação não produz resultados imediatos e requer preparativos específicos.
Essa jornada das empresas para novos destinos conta com todo um ecossistema público-privado de apoio, incluindo ministérios, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), além de associações setoriais e agências de promoção comercial.
Em coletiva de imprensa esta semana, Jorge Viana, presidente da Apex, falou sobre esse papel conjunto. A agência já apoia 2.600 das 9.000 empresas nacionais que exportam para os Estados Unidos.
“Setores como a produção de mel precisarão de apoio urgente, já que o único destino de exportação desses pequenos agricultores hoje são os Estados Unidos. Nós os incluiremos em todas as políticas de apoio”, explicou Viana durante a conferência.
Segundo Viana, o auxílio deve ser anunciado em breve, diretamente pela Presidência da República. A expectativa é que inclua elementos semelhantes ao auxílio emergencial para empresas afetadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024.
A Apex também abrirá um escritório em Washington para negociar diretamente com o governo americano, medida que amplia o diálogo entre os serviços consulares, que já atuam em nome do Brasil, e a pressão direta de empresas locais.
“Essa tarifa de 50% não tem motivação comercial; ela decorre da ação de grupos políticos. O que eu espero é que, com a entrada em vigor das tarifas, esse ônus se materialize e afete os consumidores locais. O papel da APEX é criar novas alternativas de mercado para empresas e produtos brasileiros que tinham como destino os Estados Unidos”, disse Viana, que acredita que a forte integração entre as cadeias produtivas deve ser um fator positivo nas negociações.
A Agência também precisa ampliar seus esforços para diversificar seus fornecedores. “Os setores nos ajudarão com o conhecimento que têm. Todos estão fazendo isso, sentindo a instabilidade com essas medidas”, acrescentou.
Dados da ApexBrasil mostram que, entre janeiro e março deste ano, o Brasil exportou US$ 77,3 bilhões em bens, valor inferior aos US$ 77,7 bilhões registrados no mesmo período em 2024. O saldo da balança comercial foi positivo, em US$ 10 bilhões. As principais exportações foram petróleo bruto, soja, minério de ferro e café verde, com destaque para as exportações de manufaturados, que cresceram no período, incluindo itens como máquinas e eletrodomésticos.
Em relação aos principais destinos das exportações brasileiras, destacam-se China (US$ 19,8 bilhões), União Europeia (US$ 11,1 bilhões), Estados Unidos (US$ 9,7 bilhões) e Mercosul (US$ 5,8 bilhões), além da Argentina, que registrou alta de 51%.
Diplomacia
Vias diplomáticas para reduzir as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos continuam sendo uma opção, segundo o governo brasileiro. O recuo do governo Trump em isentar uma lista de 700 produtos na semana passada demonstra certa abertura por parte do país norte-americano.
“A flexibilização tarifária é um passo positivo, e o Brasil deve aproveitar esta oportunidade para diversificar suas exportações e reduzir sua dependência do mercado americano. Com uma abordagem estratégica e diplomática, o Brasil pode minimizar os impactos negativos das tarifas e fortalecer sua posição no comércio internacional. Nesse contexto, é importante ressaltar que o diálogo e a negociação se tornam as melhores opções para evitar uma escalada das tensões comerciais entre os dois países”, explicou o advogado Raphael Jadão, sócio do escritório RMM Advogados, que atua em arbitragem e resolução de disputas comerciais.
Diversificação
Outro elemento importante nesta crise é a concentração de associações comerciais brasileiras. Será necessário um esforço para conquistar novos compradores, afirma a Apex. Alguns analistas acreditam que as exportações brasileiras são altamente concentradas. 50% delas estão concentradas em cinco países (China, EUA, Argentina, Holanda e Espanha), entre 237 parceiros comerciais. Só os Estados Unidos respondem por 12%.
“Isso levanta um sinal de alerta e gera preocupações. Porque, assim como tivemos um desafio com os Estados Unidos, em breve poderemos ter um com a China, que responde por quase um quarto de tudo o que o país envia para o exterior. E não é possível encontrar um comprador para substituir outro tão rapidamente… Nossa dependência representa um risco para o nosso padrão de exportação”, refletiu Bruno Meurer, cofundador e diretor de operações da Next Shipping, empresa de logística.
Fonte: Agência Brasil