7 de março de 2026
jorge amado

Foto: Lewy Moraes/Folhapress

 

Por Tarso Araújo

Editor do jornal LSB

Não é novo que muitos dizem que o bolsonarismo é ignorante por natureza. Até porque no cotidiano nosso brasileiro é normal ver alguns parlamentares bolsonaristas dando verdadeiras aulas de ignorância, desinformação, negacionismo e falta de conhecimento,  cultuando as fake news e, às vezes, desconhecendo  temas básicos das leis, da nossa história, do funcionamento do Estado, da nossa cultura, da literatura e do conhecimento de forma geral.

Mas chamar o bolsonarismo de um movimento de ignorantes e gente que não estuda não é apenas simplismo. É um equívoco. O bolsonarismo é um movimento político de natureza totalitária, que quer ver o Brasil pegar fogo literalmente e defende abertamente a destruição ou a submissão  das instituições democráticas às suas vontades e desejos. É o neofascismo brasileiro arrotando regra moral contra a sociedade, fingindo defender os bons costumes, dizendo e fingindo serem patriotas e defensores da família.

O bolsonarismo é muito pior do que uma vereadora inexpressiva  lá em Santa Catarina que usa a tribuna da câmara de vereadores de sua cidade para querer banir da rede pública o livro “Capitães da Areia” do renomado escritor baiano Jorge Amado.

Vi o vídeo dela falando sobre o livro e o escritor que, aparentemente, ela não leu e se leu finge que não entendeu. Não se trata se ela  é uma ignorante na literatura brasileira. Ela aparenta ser. Ela também não leu bem a história da vida de Jorge Amado, que vai muito além da militância política dele. Dar um click no google não resolve a biografia nem explica quem foi Jorge Amado.

Até porque a obra de Jorge Amado é universal, fundamental para a literatura brasileira e transcende sua vida de militante político.

Até porque Jorge Amado não precisa do bolsonarismo ou de quem quer que seja para ser o que ele sempre foi: um dos principais nomes da literatura brasileira com livros fantásticos como Mar Morto, Gabriela Cravo e Canela, Terras do Sem Fim, Tenda dos Milagres,  dentre outros.

Outro detalhe: Jorge Amado foi um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos, e é autor mais adaptado para o cinema, para o teatro e televisão

Na minha geração, quando a gente ia para a escola lá pelos anos 70 e 80 do século passado, ler Jorge Amado, Carlos Drumond de Andrade, Machado de Assis,  José de Alencar, Gracilano Ramos, dentre outros grandes nomes da literatura era algo normal.

Mesmo na ditadura militar de 1964 a 1985 quando a repressão e a falta de liberdade de expressão e opinião era clara e uma marca dos governos militares a gente lia esses autores e até outros mais avançados, podemos dizer. E ainda fazíamos um resumo numa ficha de leitura. Talvez falta isso para a vereadora, uma boa ficha de leitura.

O que acontece é que o bolsonarismo e seus parlamentares querem levar o debate da cultura brasileira e sobre a educação pública, gratuita e de qualidade para o mais baixo nível. E isso não podemos permitir. A tese da escola sem partido é o próprio retrato do bolsonarismo que quer sim uma escola não crítica e formadora de mão de obra e não formadora de cabeças pensantes. E gente que pensa, analisa, interpreta texto, critica, tem espírito crítico suficiente para entender muito bem a obra de Jorge Amado. E também criticar essa obra da forma correta.

Jorge Amado é dono de uma obra impecável, que retratou aspectos da cultura baiana e brasileira como poucos. Não podemos permitir que uma pessoa maldosa ou ignorante rebaixe um de nossos mais ilustres homens das letras. Um autor que deixou uma marca fundamental em nossa literatura.

Sobre Capitães da Areia é bom dizer que o livro na realidade narra a vida de meninos de rua, abandonados, deixados de lado pela sociedade. É um livro que narra histórias de amor, tristeza, solidariedade e faz uma crítica feroz à uma sociedade que insiste em abandonar suas crianças. Talvez seja isso a raiva de quem não quer dar voz para as crianças brasileiras.

Esse talvez até seja um dos problemas do Brasil. Temos um dos escritores mais traduzidos do mundo. No lugar de homenagear sua criatividade e escrita, alguns querem diminuí-lo. Esse é o problema de um país de um povo e de políticos que não gostam lá muito de ler.