
Por Ana Oliveira e Felipe Borges
O pastor Anderson Silva, autodeclarado líder do movimento “Machonaria” e conhecido por discursos inflamados contra lideranças políticas, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enfrenta agora acusações graves dentro de seu próprio círculo religioso. Segundo denúncias feitas por 18 ex-integrantes de sua organização, o pastor é suspeito de ter desviado ao menos R$ 500 mil de fiéis e de projetos sociais ligados à entidade.
Os denunciantes anunciaram uma renúncia coletiva em maio deste ano, abandonando cargos de liderança na Machonaria, um projeto sediado em Samambaia Sul (DF) que promete o “resgate da masculinidade bíblica”. A decisão ocorreu após sucessivas tentativas frustradas de convocar o pastor para reuniões internas destinadas a esclarecer a gestão financeira do grupo.
Segundo relatos obtidos pelos ex-pastores, Anderson Silva centralizava todas as decisões administrativas e financeiras, inclusive mantendo controle exclusivo das contas bancárias. Mesmo com uma arrecadação registrada de mais de R$ 626 mil apenas em 2023, havia atraso no pagamento de salários, férias e até mesmo das contas básicas de manutenção do projeto. Parte das atividades sociais voltadas para a comunidade também foi suspensa sem explicações.
“Ele se recusou a prestar contas. Tentamos diálogo, tentamos reuniões, mas o que vimos foi a total ausência de transparência”, disse um dos pastores que preferiu não se identificar por medo de retaliações.
A Machonaria é apresentada por Silva como uma “confraria nacional de homens”, voltada à defesa da “hombridade segundo os ensinamentos de Jesus Cristo”. O site oficial do grupo utiliza frases como “Lágrimas, Honra, Adoração e Testosterona!” para atrair seguidores, numa mistura de religiosidade conservadora com apelos à virilidade.
O pastor ganhou projeção nacional em 2023 ao usar seu canal no YouTube para declarar que os evangélicos deveriam fazer orações para que Deus “quebrasse a mandíbula do Lula”. A fala foi feita durante uma gravação ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), figura recorrente nos espaços da extrema direita religiosa. “Senhor, arrebenta a mandíbula do Lula. Prostra enfermos os ministros do STF, para que eles te conheçam no leito da enfermidade”, disse Anderson Silva no episódio, em tom exaltado.
Desde então, Silva manteve um perfil ativo nas redes sociais, com discursos centrados na suposta “crise de masculinidade” entre os fiéis e na ideia de que o cristianismo deve recuperar posturas mais “firmes” contra os inimigos políticos e culturais.
A reportagem tentou contato com Anderson Silva, mas até o fechamento deste texto ele não havia se manifestado sobre as acusações.
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Ana Oliveira e Felipe Borges são repórteres do Pragmatismo Político