7 de março de 2026
guerras cognitivas

Por Francisco Leopoldo Martins Filho

Advogado e membro efetivo da Comissão Eleitoral da OAB/CE

A comunicação institucional, aquela que deveria informar, prestar contas e promover transparência, tem assumido, em muitos municípios, um papel muito mais… criativo. Na prática, transformou-se em uma verdadeira fábrica de realidades paralelas — pagas, ironicamente, com o dinheiro do próprio contribuinte.

Empresas de publicidade, elegantemente chamadas de “agências de comunicação”, dominam hoje a mais moderna das artes: a arte de transformar absolutamente nada em um espetáculo digno de Oscar. Um remendo de calçada vira “obras de infraestrutura”; a troca de uma lâmpada vira “avanço tecnológico”; e a poda de uma árvore se torna “compromisso ambiental”. Tudo com trilha sonora emocionante, legenda motivacional e filtro de Instagram.

Munidas de estratégias de marketing digital, disparo massivo em redes sociais, manipulação de algoritmos, controle obsessivo de narrativas e, claro, uns bons perfis falsos aqui e ali, essas agências não apenas promovem ações — elas moldam percepções, apagam críticas e fabricam gestões que só existem no mundo virtual.

Enquanto isso, na vida real — aquela que não tem filtro — os buracos seguem abertos, os postos de saúde lotados, as escolas com goteiras e a população cada vez mais refém de uma estética administrativa que só convence na timeline.

O mais curioso é que tudo isso acontece sob o manto da legalidade publicitária, como se fosse normal — e aceitável — que recursos públicos sejam usados para construir um universo paralelo onde tudo funciona perfeitamente. Uma pena que só funcione no vídeo institucional.

Do ponto de vista jurídico, essa prática esbarra, tropeça e cai de cara nos princípios constitucionais da moralidade, impessoalidade e transparência. Do ponto de vista ético, dispensa comentários. E do ponto de vista democrático? Bom, é uma tragédia disfarçada de roteiro de campanha.

Fica então uma sugestão: que tal trocar a equipe de marketing pela equipe de obras? Quem sabe assim, além de vídeos bonitos, a cidade ganhe, de fato, algum serviço público que preste.

Enquanto isso, cabe à sociedade, aos órgãos de controle e à imprensa não se deixarem seduzir por trilhas épicas e legendas motivacionais. Democracia não se faz com post patrocinado. Faz-se com verdade, responsabilidade e transparência. O resto… é só efeito especial.