
Foto: Reprodução/Site Poder 36
Os entregadores de comida no Brasil são cotidianamente acionados por nós, seja em casa ou no trabalho ou em uma situação de emergência, lá está o entregador de comida nos ajudando em nosso cotidiano. Mas a realidade desses trabalhadores não é nada fácil. A exploração dos aplicativos é um dos fatores do sofrimento dessa importante categoria profissional.
A promessa de flexibilidade e ganhos razoáveis atraiu muitos trabalhadores para os aplicativos de entrega. No entanto, a realidade é bem diferente. Para obter um rendimento minimamente digno, muitos entregadores precisam trabalhar mais de 12 horas por dia, sete dias por semana. Mesmo assim, os ganhos muitas vezes não cobrem todas as despesas. Segundo pesquisas, muitos entregadores chegam a rodar mais de 100 km por dia e, descontados os custos com combustível, manutenção da moto ou bicicleta e taxas dos aplicativos, restam valores ínfimos.
Além das longas jornadas, os entregadores enfrentam riscos constantes nas ruas. O trânsito caótico, a falta de infraestrutura adequada para ciclistas e motociclistas e os altos índices de criminalidade tornam o trabalho perigoso. Assaltos, acidentes e até mesmo agressões por parte de clientes ou motoristas impacientes são uma realidade para muitos desses trabalhadores. Sem qualquer tipo de vínculo empregatício, ficam desamparados em casos de doença ou acidentes, sem seguro ou assistência financeira.
Uma das maiores ironias dessa profissão é que, enquanto entregam refeições para milhares de pessoas diariamente, muitos entregadores sofrem com insegurança alimentar. Com os baixos rendimentos e os custos elevados, muitos acabam se alimentando mal ou pulando refeições para economizar. Relatos de trabalhadores que passam o dia apenas com café e pão são comuns, uma realidade que escancara as falhas do modelo de trabalho baseado em plataformas digitais.
Estudos recentes destacam a grave situação de insegurança alimentar enfrentada por entregadores de aplicativos no Brasil. Uma pesquisa realizada por pesquisadores da Unicamp, publicada em abril de 2024, revelou que quase metade dos entregadores entrevistados não realizam as três refeições diárias básicas e frequentemente trabalham com sensação de fome. Além disso, 38% dos participantes relataram consumir menos de um litro de água por dia, indicando desidratação durante o trabalho.
A mesma pesquisa apontou que mais de 40% dos entregadores trabalham mais de 60 horas semanais, com jornadas que podem ultrapassar 80 horas semanais. Essas longas jornadas, aliadas à baixa remuneração média de R$ 12,50 por hora, contribuem para a precarização das condições de trabalho e para a insegurança alimentar desses profissionais.
Diante dessa situação, os entregadores têm se mobilizado em busca de melhores condições. Greves e protestos por aumentos nas tarifas, melhores condições de trabalho e maior proteção social têm ganhado espaço na sociedade. A regulamentação do trabalho por aplicativo tem sido debatida, mas ainda há pouca efetividade na implementação de medidas que garantam direitos básicos para esses trabalhadores.
Enquanto isso, a luta continua. A cada entrega realizada, os entregadores seguem em busca de um futuro mais digno, onde trabalhar duro signifique, de fato, uma vida melhor. E que os direitos dos trabalhadores brasileiros em qualquer categoria sejam reconhecidos.
ESCRAVIDÃO MODERNA
A realidade dos entregadores de comida é de certa forma uma espécie de “escravidão moderna”. Quem diz essa fala é o diretor-executivo da ONG Ação da Cidadania, Rodrigo Afonso. A ONG divulgou recentemente um estudo sobre os entregadores no Rio de Janeiro e São Paulo e revelou que 32% dos entregadores dessas duas capitais vivem algum grau de insegurança alimentar. Desses, 13,5% enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave, o que significa redução na quantidade ou qualidade da alimentação, ou até mesmo escassez de comida para toda a família. A taxa supera a média nacional, de 9,4%. Somente a fome em grau grave, que representa a falta de comida para todos da casa, afeta 8% dos trabalhadores entrevistados.