4 de abril de 2025
Tarifaço de Trump gera incertezas e ameaça economia global

Foto: Chip Somodevilla/Getty Images

As novas tarifas “recíprocas” anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, consolidam o início de uma nova era de riscos e de incertezas na economia global. Em linhas gerais, essa é a opinião de analistas de mercado e economistas ouvidos pelo Metrópoles a respeito das sobretaxas anunciadas pelo líder norte-americano nessa quarta-feira (2/4).

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Para Enrico Cozzolino, sócio e líder de análises da Levante Investimentos, a incerteza é uma palavra-chave para definir o quadro criado pelas novas tarifas de Trump. E elas terão um impacto negativo no mercado americano, embora ainda não se saiba qual será exatamente esse peso.

“Mas ele [impacto] vai ser ruim, porque vai taxar o consumo”, diz Cozzolino. “E perto de 50% das empresas que estão no S&P [um dos principais índices da Bolsa de Nova York] têm dificuldade de projetar o lucro futuro diante das incertezas provocadas pelas mudanças tarifárias”, completa.

Na avaliação de André Valério, economista sênior do Banco Inter, a primeira reação do mercado às medidas anunciadas por Trump foi negativa. “A visão é a de que as tarifas colocarão a economia americana em direção à recessão, com os juros de 10 anos recuando fortemente para em torno de 4,10%”, diz.

“O mercado acionário americano também recuou refletindo essa análise. De fato, as tarifas anunciadas foram muito mais fortes do que o que havia sido ventilado durante a semana.”

Novo “choque do petróleo”

Nessa quarta-feira, em entrevista ao canal de TV da Bloomberg, o ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos Larry Summers, um dos economistas mais respeitados do mundo, fez uma severa crítica ao tarifaço de Trump. Summers disse que as tarifas poderão ter um impacto na economia global semelhante ao provocado pelo choque do petróleo nos anos 1970, com queda na capacidade produtiva, aumento dos preços e desemprego.

Riscos elevados

Frederico Nobre, gestor de investimentos da Warren, destaca que a incerteza “vem pesando” sobre o mundo, principalmente em relação a ativos de risco, como ações negociadas em Bolsas. “Além disso, existe risco tanto de desaceleração da economia global, como de recessão nos EUA, que é cada vez maior”, afirma. “Isso além do risco de inflação e de aumento da dívida das famílias americanas.”

Resultado dessa incerteza, destaca Nobre, é a migração de investidores para ativos mais seguros, como é o caso do ouro. Na própria quarta, momentos antes do anúncio das novas tarifas por Trump, a cotação dos contratos para junho do metal bateu um novo recorde.

Alvos específicos

Para Haroldo da Silva, vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo (Corecon-SP), o anúncio de Trump comprovou que um dos principais alvos da disputa comercial dos Estados Unidos é a China, cuja alíquota de importação ficou em 34%, uma das mais elevadas do tarifaço.

Ele nota que as taxas também foram elevadas para países com uma indústria têxtil forte, como Vietnã (46% de alíquota) e Camboja (49%). “Isso pode fazer parte do objetivo de Trump de atrair indústrias para os EUA”, diz. “E esses setores têm cadeias produtivas que empregam muita gente.”

Alíquota do Brasil

Frederico Nobre acredita que a tarifa recíproca estipulada para o Brasil, de 10%, ficou num patamar “razoável”, entre as menores definidas pelo governo americano. “Mas Trump sempre anuncia um cataclisma e depois senta à mesa para negociar”, afirma. “Vamos ver o que acontecerá daqui para frente. E isso inclui as eventuais contramedidas que podem ser adotadas por outros países.”

Haroldo Silva destaca que o Brasil, com os 10%, ficou ao lado de países como Chile, Austrália, Colômbia e Reino Unido. “Essa taxação atrapalha a importação de produtos brasileiros, mas não será um grande problema”, afirma o economista. “No geral, porém, o plano de Trump não deve ser exitoso. A indústria não vai voltar para os EUA e os consumidores vão pagar mais caro pelos produtos.”

Fonte: Metrópoles

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